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domingo, 12 de julho de 2020

Canon Sagrado Apócrifos e Pseudoepígrafos- Norman Geisler



Apócrifos. O termo apócrifo geralmente se refere a livros polêmicos do AT que os protestantes rejeitam e os católicos romanos e as igrejas ortodoxas aceitam. A palavra apócrifo significa “escondido” ou “duvidoso”. Os que aceitam esses documentos preferem chamá-los “deuterocanônicos”, isto é:  livros do “segundo cânon”.

A posição católica romana. 
Católicos e protestantes concordam quanto à inspiração dos 27 livros do NT . Diferem em 11 obras de literatura do AT (7 livros e 4 partes de livros). Essas obras polêmicas causaram discórdia na Reforma e, em reação à sua rejeição pelos protestantes, foram “infalivelmente” declaradas parte do cânon inspirado das Escrituras em 1546 pelo Concilio de Trento .
O Concilio afirmou:
0 Sínodo [...] recebe e venera [...] todos os livros [incluindo os apócrifos] tanto do ,Antigo quanto do Novo Testamento— visto que um só Deus é o Autor de ambos [...] que foram ditados, ou pela própria palavra de Jesus ou pelo Espírito Santo [...] se alguém não aceitar como sagrados e canônicos os livros mencionados integralmente com todas as suas partes, como costumavam ser lidos na Igreja Católica (...] será anátema”(Schaff2.81).
Outro documento de Trento diz:
Mas se alguém não aceitar o que está nos livros como sagrados e canônicos, inteiros com todas as suas partes da Bíblia [...] e se consciente e deliberadamente condenar a tradição mencionada anteriormente, que seja anátema (Denzinger,Sources,n.° 784).
A mesma linguagem afirmando os apócrifos é repetida pelo Concüio Vaticano II.Os apócrifos que Roma aceita incluem 11 ou 12 livros, dependendo de Baruque 1 até 6 ser dividido em duas par-
tes. Baruque 1 até 5 e a carta de Jeremias (Baruque 6). O deuterocânonico inclui todos os 14 (ou 15) livros considerados apócrifos pelos protestantes exceto a Oração de Manasses e 1 e 2 Esdras (chamados 3 e 4 Esdras pelos católicos romanos; Esdras e Neemias eram chamados 1 e 2 Esdras pelos católicos).
Apesar do cânon católico romano ter 11 obras de literatura a mais que a versão protestante, apenas 7
livros a mais, ou um total de 46, aparecem no índice. (O AT judeu e o protestante têm 39). Como se vê na tabela seguinte, outras 4 peças de literatura estão incorporadas a Ester e Daniel.

Livros   apócrifos                                       Livros  deuterocanônicos ( Local onde está na B.Catolica)
Sabedoria de Salomão (c. 30 a.C.)                     Livro da Sabedoria
Eclesiástico (Siraque)    (132 a.C.)                     Siraque
Tobias (c. 200 a.C.)                                           Tobias
Judite (c. 1 50 a.C)                                            Judite
1 Macabeus (c. 110 a.C.)                                  1 Macabeus
2 Macabeus (c. 110-70 a.C)                              2 Macabeus
Baruque (c. 150-50 a.C)                                   Baruque capítulos 1-5
Carta de Jeremias                                              Baruque 6 (c.300 - 100 a.C)

Adições a Ester                                                  Ester 10.4-16.24 (140-130 a.C)
Oração de Azarias   (c. 200-1 a.C)                    Daniel 3.24-90  (A canção dos três rapazes"
Susana (c.200 a.C)                                            Daniel 13
Bel e o dragão                                                   Daniel 14 (c.1 00 a.C)
Oração de Manassés
(ou segunda Oração de
Manassés, c. 1 00 a.C)


Argumentos católicos
O cânon maior às vezes é denominado “cânon alexandrino” , em contraposição ao “cânon palestinense”, que não contém os apócrifos, porque supostamente eram parte da tradução grega do AT (a Septuaginta, ou lLXX ) preparada em Alexandria, Egito. As razões geralmente dadas a favor dessa lista alexandrina mais extensa são:

1. O NT reflete o pensamento dos apócrifos, e até faz referência a eventos neles descritos (cf. Hb
1.35 com 2 Macabeus 7.12).
2. O NT cita mais o AT grego com base no AT , que continha os apócrifos. Isso dá aprovação tácita ao texto inteiro.
3. Alguns pais da igreja primitiva citaram e usaram os apócrifos como Escritura na adoração pública.
4. Esses pais da igreja, como Ireneu, Tertuliano e Clemente de Alexandria aceitavam todos os
apócrifos como canônicos.
5. Cenários de catacumbas cristãs primitivas retratam episódios dos apócrifos, mostrando-os
como parte da vida religiosa cristã primitiva, o que, no mínimo, revela um grande apreço pelos apócrifos.
6. Manuscritos primitivos importantes (Álef, a e b ) intercalam os apócrifos entre os livros do AT
como parte do AT greco-judaico.
7. Concílios da igreja primitiva aceitaram os apócrifos: Roma (382), Hipona (393) e Cartago (397).
8. A Igreja Ortodoxa aceita os apócrifos. Sua aceitação demonstra que se trata de uma crença
cristã comum, não restrita aos católicos romanos.
9. A Igreja Católica Romana considerou os apócrifos canônicos no Concilio de Trento (1546), de acordo com os concílios anteriores já mencionados e com o Concilio de Florença, pouco antes da Reforma (1442).
10. Os livros apócrifos continuaram sendo incluídos em versões bíblicas protestantes até o século xix. Isso indica que mesmo os protestantes aceitavam os apócrifos até recentemente.
11. Livros apócrifos com texto em hebraico foram encontrados entre os livros canônicos do AT na
comunidade do mar Morto em Qumran, logo faziam parte do cânon hebraico

Respostas aos argumentos católicos. 

1- O NT e os apócrifos.
Pode haver no NT alusões aos apócrifos, mas não há nenhuma citação definitiva de qualquer livro  apócrifo aceito pela Igreja Católica Romana. Há alusões aos livros pseudepigráficos (falsas escrituras) que são rejeitadas por católicos romanos e protestantes, tais como Ascensão de Moisés (Jd 9) e do Livro d e Enoque (Jd 14,15). Também há citações de poetas e filósofos pagãos (At 17.28; 1C0.15.33; Tt 1.12). Nenhuma dessas fontes é citada como Escritura, nem possui autoridade.
O NT simplesmente faz referência a verdades contidas nesses livros que, por outro lado, podem conter (e realmente contêm) erros. Teólogos católicos romanos concordam com essa avaliação. O NT jamais se refere a qualquer documento fora do cânon como autorizado.

2- A LXX e os apócrifos. 
0 fato do NT citar várias vezes outros livros do AT grego não prova de forma alguma que os livros deuterocanônicos que ele contém sejam inspirados. Não é sequer um fato comprovado que a LXX do século 1 contivesse os apócrifos. Os primeiros manuscritos gregos que os incluem datam do século
iv d.C. Mesmo que esses escritos estivessem na LXX nos tempos apostólicos, Jesus e os apóstolos jamais os citaram , apesar de supostamente estarem incluídos na mesma versão do AT geralmente citada. Até as notas da New American Bible [Nova Bíblia Americana, nab] admitem de form a reveladora que os apócrifos são “livros religiosos usados por judeu s e cristãos que não foram incluídos na coleção de escritos inspirados”. Pelo contrário ,“... foram introduzidos bem mais tarde na coleção da Bíblia. Os católico s os chama m livros‘deuterocanônicos’ (segundo cânon )” (nab, p. 413).

3- Usados pelos pais da igreja
Citações dos pais da igreja usadas para apoiar a canonicidade dos apócrifos são seletivas e enganadoras. A alguns pais pareciam aceitar sua inspiração; outros os usavam p ara propósitos devocionais e homiléticos (pregação), mas não os aceitavam com o canônicos. Um especialista nos apócrifos, Roger Beckwith, observa:
Quando examinamos as passagens nos primeiros pais que supostamente deveriam estabelecer a canonicidade dos apócrifos, descobrimos que algumas delas são tiradas
do texto grego alternativo de Esdras (lEsdras) ou de adições ou apêndices de Daniel, Jeremias ou algum outro livro canônico, e que [...] não são muito relevantes; desco
brim os ainda que outras não são citações dos apócrifos; e que, dentre as que são, muitas não dão qualquer indício de que o livro seja considerado Escritu ra (The Old
Testament, cânon 387).
Epístola de Barnabé 6.7 e Tertuliano , Contra Marcião 3.22.5, não citam Sabedoria 2.12, e sim Isaías 3.10 ( a t ) , e Tertuliano, De anima [Da alma] 15, não cita Sabedoria 1.6, e sim Salmos 139.23, como a comparação entre as passagens demonstra .
Da mesma forma , Justino Mártir, Diálogo com Trifão 129, claramente não cita Sabedoria , e sim 
Provérbios 8.21-25 ( a t ) . Chamar Provérbios de “Sabedoria ” está de acordo com a nomenclatura comum dos pais [ibid., p. 427].

Geralmente, nas referências, os pais não estavam afirmando a autoridade divina de nenhum dos onze
livros canonizados infalivelmente pelo Concílio de Trento. Citavam , apenas, uma obra bem conhecida da
literatura hebraica ou um escrito devocional in formativo ao qual não davam n enh um a probabilidade de inspiração do Espírito Santo.

4- Os pais da igreja e os apócrifos
Alguns indivíduos na igreja primitiva valorizavam muito os apócrifos; outros se opunham com veemência a eles. O comentário de J. D.N. Kelly de que “para a grande maioria [dos pais] [...] as escrituras deuterocanônicas se classificavam com o Escritura no sentido completo” está fora de sintonia com
os fatos.
Atanásio, Cirilo de Jerusalém , Orígenes e o grande teólogo católico romano e tradutor da Vulgata, Jerônimo, todos se opu ham à inclusão dos apócrifos. No século ii d.C. a versão siríaca (Peshita) não continha os apócrifos (Introdução bíblica, cap. 7 a 9).

5-Temas apócrifos na arte das catacumbas.
Muitos teólogos católicos também ad m item que as cenas das catacumbas não provam a canonicidade dos livros cujos eventos retratam . Tais cenas indicam o significado religioso que os eventos retratados tinham para os cristãos primitivos. No máximo, demonstram respeito pelos livros que continham esses eventos, não o reconhecimento de que fossem inspirados.

6- Livros nos manuscritos gregos. 
Nenhum dos grandes manuscritos gregos (Álef, e b) contém todos os livros apócrifos. Tobias, Judite, Sabedoria e Siraque (Eclesiástico) são encontrados em todos eles,e os manuscritos mais antigos (b o u Vaticano) excluem totalmente Macabeus. Mas os católicos apelam a esse manuscrito p ara apoiar sua posição. Além disso ,nenhum manuscrito grego contém a mesma lista de livros apócrifos aceita pelo Concílio de Trento (1545-1563; Beckw ith, p. 194,382-3).

7-Aceitação pelos primeiros concílios
Esses foram apenas concílios locais e não eram impostos à igreja toda. Concílios locais geralmente erravam nas suas decisões e mais tarde eram anulados pela igreja universal. Alguns apologistas católicos argumentam que, mesmo que um concílio não seja ecumênico, seus resultados podem ser impostos se forem confirmados.

Mas reconhecem que não há ma eira infalível de saber quais afirmações dos papas são infalíveis. Na verdade, admitem que outras afirm ações dos papas são até heréticas, tais com o a heresia monotelita do papa Honório i (m . 638).Também é importante lembrar que esses livros não são parte das Escrituras cristãs (período do NT ) . Encontram-se, assim , sob a jurisdição da comunidade judaica que os compusera e que, séculos antes, os rejeitara com o parte do cânon.

Os livros aceitos por esses concílios cristãos podem até não ser os mesmos em cada caso. Portanto,
não podem ser usados com o prova do cânon exato mais tarde proclamado “infalível” pela Igreja Católica
Romana em 1546.

Os Concílios locais de Hipona e Cartago no Norte da África foram influenciados por Agostinho, a voz mais importante da antigüidade, que aceitava os livros apócrifos canonizados mais tarde pelo Concílio de Trento. Mas a posição de Agostinho é infundada:
 1) O próprio Agostinho reconheceu que os judeus não aceitaram esses livros como parte do cânon (A cidade de Deus, 19.36-38).
2) Sobre os livros dos Macabeus.Agostinho disse: “... tidos por canônicos pela igreja e por apócrifos pelos judeus. A igreja assim pensa por causa dos terríveis e admiráveis sofrimentos desses mártires...” (Agostinho, 18.36). Nesse caso, O livro dos mártires, de Foxe, deveria estar no cânon.
3) Agostinho era incoerente, já que rejeitou livros que não foramescritos por profetas, mas aceitou um livro que parece negar ser profético (IMacabeus 9.27).
4) A aceitação errada dos apócrifos por Agostinho parece estar ligada a sua crença na inspiração da LXX, cujos manuscrtos gregos mais recentes os continham. Mais tarde Agostinho reconheceu a superioridade do textohebraico de Jerônimo comparado ao texto grego da LXX . Isso deveria tê-lo levado a aceitar a superioridade do cânon hebraico de Jerônimo também. Jerônimo rejeitava completamente os apócrifos.

O Concilio de Roma (382) que aceitou os livros apócrifos não incluiu os mesmos livros aceitos por
Hipona e Cartago. Ele não inclui Baruque, apenas seis, não sete, dos livros apócrifos declarados canônicos mais tarde. Até Trento o descreve como livro separado (Denzinger, n.° 84).

8- Aceitação pela Igreja Ortodoxa. 
A igreja grega nem sempre aceitou os apócrifos e sua posição atual não é inequívoca. Nos Sínodos de Constantinopla (1638), Jafa (1642) e Jerusalém (1672)   [após a Igreja Romana] esses livros foram declarados canônicos. Mesmo até 1839, no entanto, seu Catecismo maior omitia expressamente os apócrifos porque não existiam na Bíblia hebraica.
Aceitação nos Concílios de Florença e Trento. No Concilio de Trento (1546) a proclamação infalível foi
feita aceitando os apócrifos como parte da Palavra inspirada de Deus. Alguns teólogos católicos afirmam que o Concilio de Florença, anterior a Trento (1442) fez a mesma declaração. Mas esse concilio não afirmou nenhuma infalibilidade, e a decisão do concilio também não tem nenhuma base real na história judaica, no NT ou na história cristã primitiva. Infelizmente, a decisão de Trento veio um milênio e meio depois de os livros serem escritos e foi uma polêmica óbvia contra o protestantismo. O Concilio de Florença proclamou que os apócrifos era inspirados para apoiar a doutrina do purgatório que havia surgido. Mas as manifestações dessa crença na venda de indulgências chegaram ao ponto máximo na época de Martinho Lutero, e a proclamação de Trento sobre os apócrifos era uma contradição clara ao ensino de Lutero. A adição infalível oficial dos livros que apoiam orações pelos mortos é muito suspeita, chegando apenas alguns anos depois de Lutero protestar contra essa doutrina. Ela tem toda a aparência de uma tentativa de dar apoio “infalível” para doutrinas que não têm verdadeira base bíblica.

9-Livros apócrifos nas versões bíblicas protestantes.
Os livros apócrifos apareceram em versões bíblicas protestantes antes do Concilio de Trento e geralmente 
eram colocados numa seção separada porque não eram considerados de igual autoridade. Apesar de anglicanos e alguns outros grupos não-católicos terem sempre dado muita importância ao valor inspirativo e histórico dos apócrifos, nunca os consideraram de origem divina e de autoridade igual a das Escrituras. Até teólogos católicos durante o período da Reforma distinguiam entre o deuterocânon e o cânon.
O cardeal Ximenes fez essa distinção na sua imponente Bíblia, a Poliglota complutense (1514-1517) às vésperas da Reforma. O cardeal Cajetano, que depois se opôs a Lutero em Augsburgo, em 1518, publicou, depois da Reforma ter começado, o Comentário sobre todos os livros históricos autênticos do Antigo Testamento(1532), que não continha os apócrifos. Lutero falou contra os apócrifos em 1543, incluindo tais livros no fim da sua Bíblia (Metzger, p,181ss.).

10- Livros apócrifos em Qumran.
A descoberta dos rolos do mar Morto em Qumran não incluía apenas a Bíblia da comunidade (0 a t ) mas também sua biblioteca, com fragmentos de centenas de livros. Entre eles se achavam alguns livros apócrifos do a t . 0 fato de nenhum comentário ser encontrado para qualquer dos livros apócrifos e apenas livros canônicos serem encontrados em pergaminhos e escritos especiais indica que os livros apócrifos não eram considerados canônicos pela comunidade de Qumran. Menahem Mansur alista os seguintes fragmentos dos apócrifose dos livros p seu d ep íg rafos: Tobias, em hebraico e aramaico; Enoque, em aramaico; Jubileus, em hebraico; Testamento de Levi e Naftali, em aramaico; literatura apócrifa de Daniel, em hebraico e aramaico, e Salmos de Josu é (Mansur, p. 203). 0 especialista em manuscritos do mar Morto, Millar Burroughs, concluiu: “Não há motivo para acreditar que alguma dessas
obras fosse venerada como Escritura Sagrada” (Morelight on the D ead Sea Scrolls p. 178).


Resumo dos argumentos católicos.
No máximo, tudo o que os argumentos usados a favor da canonicidade dos livros apócrifos provam é que vários livros apócrifos receberam níveis variados de aceitação por pessoas diferentes na igreja cristã, geralmente não atingindo a confirmação de sua canonicidade. Só depois de Agostinho e dos concílios locais que ele dominou declararem-nos inspirados é que começaram a ser mais usados e, por fim, receberam aceitação infalível da Igreja Católica Romana em Trento. Isso ainda não atinge o tipo de reconhecimento inicial, contínuo e total entre as igrejas cristãs dos livros canônicos do AT protestante e da Torá judaica (que exclui os apócrifos). Os verdadeiros livros canônicos foram recebidos imediatamente pelo povo de Deus no cânon crescente das Escrituras (Introdução bíblica, cap. 8). Qualquer debate subseqüente foi travado pelos que não estavam numa posição, assim como sua audiência imediata, de saber se eram de um apóstolo ou profeta autorizado. Assim, esse debate subseqüente sobre os chamados antilegomena era devido a
sua autenticidade, não canonicidade. Eles já estavam no cânon; algumas pessoas em gerações posteriores questionaram se deviam estar ali. Eventualmente, todos os antilegomena (livros questionados mais tarde por algumas pessoas) foram retidos no cânon. Isso não aconteceu com os apócrifos, pois os protestantes rejeitaram todos eles e até os católicos rejeitaram 3 Esdras, 4 Esdras e a oração de Manassés.



Argumentos a favor do cânon protestante. 
A evidência indica que o cânon protestante, que consiste em 39 livros da Bíblia hebraica e exclui os apócrifos, é o verdadeiro cânon. A única diferença entre o cânon protestante e o palestino antigo está na sua ordem. A Bíblia antiga tem 24 livros. Combinados em um só estão 1 e 2 Samuel, bem como 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras e Neemias (o que reduz o número em quatro). Os 12 profetas menores são contados como um único livro (reduzindo o número em 11). Os judeus palestinos representavam a ortodoxia judaica. Portanto, seu cânon era reconhecido por ortodoxo. Foi o cânon de Jesus (Introdução bíblica, cap. 4), Josefo e Jerônimo.
Foi o cânon de muitos pais da igreja primitiva, entre eles Orígenes, Cirilo de Jerusalém e Atanásio.
Os argumentos que apóiam 0 cânon protestante podem ser divididos em dois grupos: históricos
e doutrinários.

Argumentos históricos

1- O teste da canonicidade.
 Ao contrário do argumento católico com base no uso cristão, o verdadeiro teste da canonicidade é a caracteristíca profética. Deus determinou quais livros estariam  na Bíblia ao dar sua mensagem a um profeta. Então apenas livros escritos por um profeta ou porta-voz credenciado por Deus são inspirados ou pertencem ao cânon das Escrituras.

É claro que, apesar de Deus ter determinado a canonicidade desta maneira, o povo de Deus teve de descobrir quais desses livros eram proféticos. 0 povo de

Deus a quem o profeta escreveu sabia que os profetas satisfaziam os testes bíblicos para serem representantes de Deus, e eles os autenticaram ao aceitar os livros como vindos de Deus. Os livros de Moisés foram aceitos imediatamente e guardados num lugar sagrado (Dt 31.26). O livro de Josué foi aceito imediatamente e preservado com a Lei de Moisés (Js 24.26). Samuel foi acrescentado à coleção (ISm 10.25). Daniel já tinha uma cópia do seu contemporâneo profético Jeremias (Dn 9.2) e da Lei (Dn 9.11,13). Apesar da mensagem de Jeremias ter sido rejeitada por grande parte da sua geração, o remanescente deve ter aceitado e espalhado rapidamente sua obra.

Paulo encorajou as igrejas a fazer circular suas epístolas inspiradas (Cl 4.16). Pedro 
possuía uma coleção das obras de Paulo, igualandoas ao a t como “Escritura” (2Pe 3.15,16).

Havia várias maneiras de contemporâneos confirmarem se alguém era profeta de Deus. 

Alguns foram confirmados de forma sobrenatural (Êx 3,4; At 2.22; 2C0 12.12; Hb 2.3,4). Às vezes isso acontecia por meio da confirmação imediata da autoridade sobre a natureza ou da precisão da profecia preditiva. Na verdade, os falsos profetas eram eliminados se suas previsões não se realizassem (Dt 18.20-22). Supostas revelações que contradiziam verdades reveladas anteriormente também eram rejeitadas (Dt 13.1-3).

Evidências de que os contemporâneos de cada profeta autenticaram e acrescentaram seus livros ao cânon
crescente vêm das citações de obras posteriores. As obras de Moisés são citadas em todo o AT, começando com seu sucessor imediato Josué (Js 1.7; lRs 2.3; 2Rs 14.6; 2Cr 17.9; Ed 6.18; Ne 13.3; Jr 8.8; Ml 4.4).

Profetas posteriores citam os anteriores (e.g., Jr 26.18; Ez 14.14,20; Dn 9.2; Jn 2.2-9; Mq 4.1 -3). No n t , Paulo cita Lucas (Um 5.18); Pedro reconhece as epístolas de Paulo (2Pe 3.15,16), e Judas (4-12) cita 2 Pedro.

O Apocalipse está cheio de imagens e idéias de Escrituras anteriores, especialmente Daniel (v., e.g., Ap 13).
Todo o AT judaico/protestante foi considerado profético. Moisés, que escreveu os cinco primeiros livros,
foi um profeta (Dt 18.15). O restante dos livros do AT foi conhecido durante séculos pela designação “Profetas” (Mt 5.17; Lc 24.27).
Posteriormente esses livros foram divididos em “Profetas” e “Escritos” . Alguns acreditam que essa divisão foi baseada no fato do autor ser um profeta por ofício ou por dom. Outros acreditam que a separação foi estabelecida para uso tópico em festivais judaicos, ou que os livros foram colocados em seqüência cronológica, por ordem de tamanho decrescente (Introdução bíblica, cap. 7). Seja qual for a razão, é evidente que a maneira original (cf. 7.12) e contínua de referir-se ao AT como um todo até a época de Cristo era a divisão dupla: “a Lei e os Profetas”.

Os “apóstolos e profetas” (Ef 3.5) compunham o NT .
Então, toda a Bíblia é um livro profético, incluindo o último livro (e.g., Ap 20); isso não se aplica aos livros
apócrifos.


2- Profecia não-autenticada. 
Há forte evidência de que os livros apócrifos não são proféticos, e já que a profecia é o teste da canonicidade, só esse fato os elimina do cânon.
Nenhum livro apócrifo afirma ser escrito por um profeta. Na verdade, o livro de Macabeus afirma não ser profético (IMacabeus 9.27). E não há confirmação sobrenatural de qualquer um dos escritores dos livros apócrifos, como há para os profetas que escreveram livros canônicos. Não há profecia que preveja o futuro nos apócrifos, como há em alguns livros canônicos (e.g., Is 53; Dn 9; Mq 5.2). Não há nova verdade messiânica nos apócrifos. Até a comunidade judaica, a quem os livros pertenciam, reconheceu que os dons proféticos haviam cessado em Israel antes de os apócrifos 
serem escritos (v. citações anteriores).

Os livros apócrifos jamais foram alistados na Bíblia judaica
com os profetas ou qualquer outra seção. Os livros apócrifos não são citados nenhuma vez com autoridade por nenhum livro profético escrito depois deles. Levando em conta tudo isso, temos evidências mais que suficientes de que os apócrifos não eram proféticos e, portanto, não deveriam ser parte do cânon das Escrituras.

3- Rejeição judaica.
Além das evidências da característica profética apontarem apenas para os livros do AT judaico e protestante, há uma rejeição contínua dos apócrifos como cânon por mestres judeus e cristãos.

Filo, um mestre judeu alexandrino (20 a.C.-40d.C.), citava o AT prolificamente, utilizando quase todos os livros canônicos, mas nunca citou os apócrifos como inspiràdos.

Josefo (30-100 d.C.), um historiador judeu, exclui explicitamente os apócrifos, numerando os livros
do AT em 22 ( - 39 livros no a t protestante). Ele também nunca citou um livro apócrifo como Escritura,
apesar de conhecê-los bem. Em Contra Ápion (1.8),ele escreveu:
Pois não temos uma multidão incontável de livros entre nós, discordando dos outros e contradizendo uns aos outros [como os gregos têm], mas apenas 22 livros, que são justamente considerados divinos; e deles, cinco pertencem a Moisés, con-
têm sua lei e as tradições da origem da humanidade até a morte dele. Esse intervalo de tempo foi pouco menor que três mil anos; mas quanto ao tempo da morte de Moisés até 0 reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, que reinou em Xerxes, os profetas,
que vieram depois de Moisés, escreveram o que foi feito nas suas respectivas épocas em treze livros. Os outros quatro livros contêm hinos a Deus e preceitos para a conduta da vida humana (Jos
efo, 1.8,grifo do autor).

Esses correspondem exatamente ao AT judaico e protestante, que exclui os apócrifos.
Os mestres judeus reconheceram que sua linhagem profética terminou no século vi a.C. Mas, como até os
católicos reconhecem, todos os livros apócrifos foram escritos depois dessa época. Josefo escreveu:
“De Artaxerxes até nossa época tudo foi registrado, mas não foi considerado digno do mesmo reconhecimento do que o que  precedeu, porque a sucessão exata dos pro-fetas cessou” (Josefo). 

Outras afirmações rabínicas sobre 0 término da profecia apóiam esse argumento (v.Beckwith, p. 370). O Seder olam rabbah 30 declara:
“Até então [a vinda de Alexandre, 0 Grande] os profetas profetizavam por meio do Espírito Santo. Daí em diante:‘Incline seu ouvido e ouça as palavras dos sábios’”.

 Baba batra 12b declara:
“Desde a época em que o templo foi destruído, a profecia foi tirada dos profetas e dada aos sábios” . 
O rabino Samuel bar Inia disse:
 “O segundo Templo não tinha cinco coisas que o primeiro Templo possuía: a saber, 0 fogo, a arca, 0 Urirn e o Tumim, o óleo da unção e o Espírito Santo [da profecia]”
Então, os mestres judeus (rabinos) reconheceram que o período de tempo durante o qual os apócrifos foram escritos não foi um período em que Deus estava transmitindo escrituras inspiradas.

4- Os autores do NT
Jesus e os autores do NT nunca citaram os apócrifos como Escritura, apesar de estarem cientes dessas obras e fazerem alusão a elas ocasionalmente (e.g., Hb 11.35 pode fazer alusão a 2 Macabeus 7,12, ou pode ser uma referência a lRs 17.22). Mas centenas de citações no NT mencionam o cânon do AT . A autoridade com que foram citadas indica que os autores do NT as consideravam parte da “Lei e dos Profetas” [i.e., 0 a t inteiro], que era considerada Palavra de Deus inspirada e infalível (Mt 5.17,18; cf. Jo 10.35). Jesus citou partes de todas as divisões da “Lei” e do “Profetas” do AT , que ele denominava “todas as Escrituras” (Lc 24.27).

Os eruditos judeus em Jâmnia (c. 90 d.C.) não aceitaram os apócrifos como parte do cânon judaico
divinamente inspirado (v. Beckwith, p. 276-7). Já que o NT afirma explicitamente que a Israel foram confiadas as palavras de Deus” e que a nação fora destinatária das alianças e da Lei (Rm 3.2), os judeus foram considerados guardiões dos limites do próprio cânon. Como tal, sempre rejeitaram os apócrifos.

5-A rejeição dos concílios da igreja primitiva.
Nenhuma lista canônica ou concilio da igreja cristã considerou os apócrifos inspirados durante os quase quatro primeiros séculos. Isso é importante, já que todas as listas disponíveis e a maioria dos mestres desse período omitem os apócrifos.
Os primeiros concílios a aceitar os apócrifos eram apenas locais, sem força ecumênica.A alegação católica de que o Concílio de Roma (382), a pesar de não ser um concílio ecumênico , t i ­
nha força ecumênica porque  o papa Dâmaso (304-384) o ratifico u é sem fu n d a m en to . É u m a alegação forçada, que supõe que Dâmaso era um papa com autoridade infalível. E até mesmo os católicos re­conhecem que esse concílio não era um grupo ecum ên ico.

 Nem todo s os teólogos católicos concordam que tais afirmações dos papas são infalíveis.Não h á listas infalíveis de afirmações infalíveis dos P apas. Nem há um critério universalmente aprovado para desenvolver tais listas. No máximo , apelar ao papa para tornar infalível a afirmação de um concílio local é uma faca de dois gum es. Mesmo teólogos católicos adm item que alguns papas ensinaram erros e foram até heréticos.

6- Rejeição por parte dos primeiros pais da igreja. Alguns dos prim eiros pais da igreja declararam -se contrário s aos apócrifos. Entre esses figuravam Orígenes,Cirilo de Jerusalém , Atanásio e o grande tradutor católico das Escrituras, Jerônimo.

Rejeição por jerônimo. Jerônimo (340-420), o  grande teólogo bíblico do início do período medieval e tradutor da Vulgata latina, rejeito u explicitamente os apócrifos com o parte do cânon. Ele disse que a igreja os lê:
para exemplo e instrução de costumes”, m as não “os aplica para estabelecer nenhum a doutrina” (Prefácio do Livro de Salomão da Vulgata, citado em Beckwith, p.343). 

Na verdade, ele criticou a aceitação injustificada desses livros por Agostinho. A princípio, Jerônimo até
recusou-se a traduzir os apócrifos para o latim , mas depois fez um a tradução rápida de alguns livros. Depois de descrever os livros exatos do a t judaico [e p rotestante] , Jerônim o conclui:

E então no total há 22 livros da Lei antiga [conforme as letras do alfabeto judaico], isto é, 5 de Moisés, 8 dos Profetas e 9 dos hagiógrafos. Apesar de alguns incluírem [...] Rute e Lamentações no hagiógrafo, e acharem que esses livros devem ser contados (separadamente) e que há então 24 livros da antiga Lei, aos quais o Apocalipse de João representa adorando ao Cordeiro por meio do número de 24 anciãos [...]

Esse prólogo pode servir perfeitamente como elmo (i.e., equipado com elmo, contra atacantes) de introdução a todos os livros bíblicos que traduzimos do hebraico para o latim, para
que saibamos que os que não estão incluídos nesses devem ser incluídos nos apócrifos (ibid.,grifo do autor).

No prefácio de Daniel, Jerônimo rejeitou claramente as adições apócrifas a Daniel (Bel e o Dragão e
Susana) e defendeu apenas a canonicidade dos livros encontrados n a Bíblia hebraica, escrevendo:
As histórias de Susana e de Bei e o Dragão não estão contidas no hebraico [...] Por isso, quando traduzia Daniel muitos anos atrás, anotei essas visões com um símbolo crítico,
demonstrando que não estavam incluídas no hebraico [...] Afinal, Orígenes, Eusébio e Apolinário e outros clérigos e mestres distintos da Grécia reconhecem que, como eu disse, essas visões não se encontram no hebraico, e portanto não são obrigados a refutar Porfírio quanto a essas porções que não exibem autoridade de Escrituras Sagradas (ibid., grifo do autor).
A sugestão de que Jerônimo realm ente favorecia os livros apócrifos, mas só estava argumentando que
os judeus os rejeitavam , é infundada. Ele disse claramente na citação acima que: “não exibem autoridadede Escrituras S agradas”, e jamais retirou sua rejeição dos apócrifos. Ele afirmou na obra Contra Rufino, 33, que havia “seguido o julgamento das igrejas” nesse assunto. E sua afirmação: “Não estava seguindo minhas convicções” parece referir-se às “afirmações que eles [os inimigos do cristianismo] estão acostumados a fazer contra nós” . De qualquer forma, ele não retirou em lugar algum  suas afirmações contra os apócrifos. Finalmente, o fato de que Jerônimo tenha citado os livros apócrifos não é prova de que os aceitava. Essa era uma prática comum de muitos pais da igreja. Ele afirmou que a igreja os lê “para exemplo e instrução de costumes” mas não “os aplica para estabelecer qualquer doutrina” .

7- A rejeição dos teólogos.
Até teólogos católicos notáveis d u ran te o período da Reform a rejeitaram os apócrifos, tal com o o cardeal Cajetano, que se opôs a Lutero.
Como já foi citado, ele escreveu o livro Comentário sobre todos os livros históricos autênticos do Antigo Testamento (1532), que excluía os apócrifos. Se ele acreditasse que fossem autênticos, certam ente os teria incluído num livro sobre “todos os autênticos” livros do a t .
 Lutero, João Calvino e outros reform adores rejeitavam a canonicidade dos apócrifos. Luterano  e anglicanos usam-nos apenas para assuntos éticos e devocionais, mas não os consideram oficiais em q u estões da fé. Igrejas reform adas seguiram A confissão de fé de Westminster (1647), afirma:
Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do Cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos {Da Sagrada Escritura, l.m).

Em resumo, a igreja cristã (incluindo anglicanos, luteranos e reform ados) rejeitou os livros deuterocanônicos com o parte do cânon. Eles fazem isso porque lhes falta o fator determinante primário da canonicidade:
os livros apócrifos não têm evidência de que foram escritos por profetas credenciados por Deus. Outra evidência é encontrada no fato de que os livros apócrifos jamais foram citados como autoridade nas Escrituras do n t , nem fizeram parte do cânon judaico, e a igreja primitiva nunca os aceitou como inspirados.

8-O  erro de Trento.
O pronunciamento infalível do Concilio de Trento de que os livros apócrifos são parte
da Palavra inspirada de Deus revela quão falível uma afirmação supostamente infalível pode ser. Esse artigo demonstrou que a afirmação é historicamente infundada. Foi um exagero polêmico e uma decisão arbitrária envolvendo uma exclusão dogmática.

O pronunciamento de Trento sobre os apócrifos foi parte de uma ação polêmica contra Lutero. Seus defensores consideravam que a aceitação dos apócrifos como inspirados era necessária para justificar
ensinamentos que Lutero havia atacado, principalmente as orações pelos mortos. O texto de 2 Macabeus
12.46 diz: “... mandou fazer o sacrifício expiatório pelos falecidos, a fim de que fossem absolvidos do seu pecado” ( c n b b ) .

Já que havia uma obrigação de aceitar certos livros, as decisões foram um tanto arbitrárias.
Trento aceitou 2 Macabeus, que apoiava as orações pelos mortos e rejeitou 2 Esdras (4 Esdras pela avaliação católica), que tinha uma afirmação que não apoiava a prática (cf. 7.105).
A própria história dessa seção de 2(4)Esdras revela a arbitrariedade da decisão de Trento. Ele foi escrito em aramaico por um autor judeu desconhecido (c. 100 d.C.) e circulou nas antigas versões latinas (c. 200). A Vulgata o incluiu como apêndice do n t ( c . 400). Desapareceu da Bíblia até que protestantes, começando com Johann Haug (1726-1742), começaram a imprimi-lo nos apócrifos com base nos textos aramaicos, já que não constava nos manuscritos em latim da época. Mas, em 1874 uma longa seção em latim (70 versículos do capítulo 7) foi encontrada por Robert Bently numa biblioteca em Amiens, França. Bruce Metzger comentou:

É provável que a seção perdida tenha sido deliberadamente arrancada de um ancestral da maioria dos manuscritos latinos sobreviventes, por razões dogmáticas, pois a passagem contém uma negação enfática do valor das orações pelos mortos.
Alguns católicos argumentam que essa exclusão não é arbitrária porque essa obra não fazia parte das listas
deuterocanônicas antigas, foi escrita depois da época de Cristo, foi relegada a uma posição inferior na Vulgata e só foi incluída nos apócrifos por protestantes no século x v iii.
Por outro lado, 2[4]Esdras fez parte de listas antigas de livros não considerados completamente canônicos. Segundo o critério católico, a data da obra não diz respeito à possibilidade de ter ela constado dos apócrifos judaicos, mas com o fato de ter sido usada por cristãos primitivos; ela foi usada, juntamente com outros livros apócrifos. Não deveria ter sido rejeitada porque tinha posição inferior na Vulgata. Jerônimo relegou todas essas obras a uma posição inferior. Ela não reapareceu no latim até o século xviii porque aparentemente algum monge católico arrancou a seção de orações pelos mortos. Orações pelos mortos eram preocupação constante dos clérigos de Trento, que convocaram seu concilio  apenas 29 anos depois de Lutero ter publicado suas teses contra a venda de indulgências. As doutrinas de indulgências, purgatório e orações pelos mortos permanecem ou caem juntas.

Argumentos doutrinários.
 Canonicidade. As posições falsas e verdadeiras que determinam a canonicidade podem ser comparadas da seguinte forma (Introdução bíblica, p. 62).

Posição correta sobre o cânon:
A igreja descobre o cânon.
A igreja é filha do cânon.
A igreja é ministra do cânon.
A igreja reconhece o cânon.
A igreja é testemunha do cânon.
A igreja é serva do cânon.

Posição incorreta sobre o cânon
A igreja determina o cânon.
A igreja é mãe do cânon.
A igreja é magistrada do cânon.
A igreja regula o cânon.
A igreja é juíza do cânon.
A igreja é mestra do cânon.

Fontes católicas podem ser citadas para apoiar uma doutrina de canonicidade que se parece muito
com a“posição correta” . O problema é que apologistas católicos geralmente se equivocam nesse assunto. Peter Kreeft, por exemplo, argumentou que a igreja deve ser infalível se a Bíblia é, já que o efeito não pode ser maior que a causa e a igreja causou o cânon. Mas se a igreja é regulada pelo cânon, em vez de governá-lo, então a igreja não é a causa do cânon. Outros defensores do catolicismo cometem o mesmo erro, afirmando da boca para fora o fato de que a igreja apenas descobre o cânon, mas por outro lado insistindo no argumento que faz a igreja a definidora do cânon. Eles negligenciam o fato de que foi Deus (por inspiração) quem causou as Escrituras canônicas, não a igreja.
Essa má interpretação às vezes é evidente no uso equivocado da palavra testemunha. Quando falamos
sobre a igreja como “testemunha” do cânon depois da época em que foi escrito não querem os dizer no sentido de ser um a testemunha ocular (i.e., relatando evidência de primeira mão). O papel adequado da igreja cristã no descobrimento de quais livros pertencem ao cânon pode ser reduzido a vários preceitos.

1-Somente o povo de Deus contemporâneo à autoria dos livros bíblicos foi verdadeira testemunha da evidência. 

Só eles foram testemunhas do cânon durante seu desenvolvimento. Só eles poderiam atestar a evidência da característica profética dos livros bíblicos, que é o fator determinante da canonicidade.

2-A igreja posterior não é testemunha da evidência do cânon.
Ela não cria nem constitui evidência para ocânon. É apenas descobridora e observadora da evidência que resta para a confirmação original da qualidade profética dos livros canônicos. A suposição da igreja de que a evidência subsiste em si m esma é o erro por trás da posição católica.

3-Nem a igreja primitiva nem a recente é juíza do cânon.
 A igreja não é o árbitro final quanto aos critérios do que será admitido com o evidência. Somente Deus pode determinar os critérios para nosso descobrimento do que seja sua Palavra. O que é de Deus terá suas “impressões digitais”; só Deus o determina com o são suas “impressões digitais”.

4-Tanto a igreja primitiva quanto a recente são mais juradas que juízas.
Os jurados ouvem as evidências, avaliam as evidências e apresentam um veredicto de acordo com as evidências. A igreja contemporânea (século i) testemunhou evidências de primeira mão da atividade profética (tais com o milagres), e a igreja posterior examinou as evidências da autenticidade desses livros proféticos, que foram confirmados diretamente por Deus quando foram escritos

De certa form a, a igreja “julga” o cânon. Ela é chamada, com o todos os jurados são, a realizar a seleção
e avaliação das evidências para chegar ao veredicto.Mas não é isso que a igreja romana praticou no seu
papel magisterial de determinação do cânon. Afinal, é isso que se quer dizer com o “magistério” da igreja. A
hierarquia católica não é apenas ministerial; tem papel judicial, não apenas administrativo. Não é apenas
o júri observando a evidência; é o juiz determinando o que se classifica com o evidência.
Aí está o problem a. Ao exercer o papel magisterial, a Igreja Católica escolheu o curso errado para apresentar sua decisão sobre os apócrifos. Inicialmente, decidiu seguir o critério errado, uso cristão em vez de qualidade profética.

Em segundo lugar, usou evidência de segunda mão de escritores posteriores em vez de apenas evidência de primeira mão para a canonicidade (confirm ação divina da atuação profética do autor).

Em terceiro lugar, não usou confirm ação imediata dos contemporâneos, mas afirmações posteriores de pessoas nascidas séculos depois dos eventos.
Todos esses erros surgiram da interpretação incorreta do próprio papel da igreja com o juíza em vez de jurada, com o magistrada em vez de ministra, soberana em vez de serva do cânon. Por outro lado, a rejeição protestante dos apócrifos foi baseada na compreensão do papel das p rim eiras testemunhas  ara as características proféticas e da igreja com o guardiã dessa evidência da autenticidade.


Os apócrifos do NT.

O s apócrifos do NT formam um a coleção de livros contestados que foram aceitos por algum as pessoas no cânon das E scrituras. Ao contrário dos apócrifos do AT , o s apócrifos do NT não causaram controvérsia perm anen te ou séria, já que a igreja universal concorda que apenas 27 livros do NT são inspirados . Os livros apócrifos foram usados pelo valor devocional, ao contrário dos livros mais espúrios (m u ita s vezes h e ré tic o s ) da pseudepigrafia do NT . Obras pseudepigráficas às vezes são chamadas “apócrifas”, mas foram rejeitadas universalmente por todas as tradições da igreja.

Os apócrifos do NT incluem A epístola de pseudo-Barnabé{c. 70-90 d.C.), A epístola aos coríntios (c. 96),O evangelho segundo os hebreus (c. 65-100), A epístola de Policarpo aos filipenses (c. 108), Didaquê ou O ensino dos doze apóstolos(c. 100-120), Aí sete epístolas de Inácio (c. 110), Homilia antiga ou A segunda epístola de Clemente (c. 120-140), O pastor de Hermas (c. 115-40), O apocalipse de Pedro (c. 150), e A epístola aos laodicenses (século iv [?]).

Razões para a rejeição .
N e n h u m d o s livro s apócrifos do NT teve mais que uma aceitação local ou temporária. A maioria teve, no máximo, status quase canónico, meros apêndices de manuscritos diversos ou incluídos em índices. Nenhum cânon importante ou concílio eclesiástico os aceitou com o p a rte da Palavra inspirada de Deus. Onde foram aceitos no cânon por grupos de cristãos, isso se deve ao fato de terem sido atribuídos equivocadamente a um apóstolo ou mencionados por um livro inspirado (por exemplo, Cl 4.16). Quando descobriam que isso era falso, sua canonicidade era rejeitada.

Conclusão.
As disputas sobre os apócrifos do AT  tem um papel importante nas disputas católicas e protestantes sobre ensinamentos com o o purgatório e orações pelos m ortos. Não há evidências de que os livros apócrifos sejam inspirados e, portanto, devam ser pa rte do cânon das Escrituras inspiradas. Eles não afirm am ser inspirados, e a inspiração não lhes é atribuída pela comunidade judaica que os produziu. Não são citados n en h u m a vez com o E scritu ra no x t . Muitos pais da igreja primitiva, incluindo Jerônimo, os rejeitavam categoricamente. Acrescentá-los à Bíblia pelo decreto infalível no Concilio de Trento evidencia um
pronunciamento dogmático e polêmico criado para sustentar doutrinas que não são apoiadas claramente
em nenhum dos livros canônicos.
À luz dessa evidência poderosa contra os apócrifos, a decisão da Igreja Católica Romana e Ortodoxa de declará-los canônicos é infundada e rejeitada pelos protestantes. É um erro sério admitir materiais não inspirados para corromper a revelação escrita de Deus e minar a autoridade divina das Escrituras (Ramm,p. 65).    Enciclopedia de Apologética. São Paulo:Vida, 2002p. 47-56

Fontes
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B. Metzger, A « introduction to the apocrypha.
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