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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Karl Marx- Cristão, Satanista ou ateu? Examine os textos de Marx por si mesmo

 


Karl Marx foi cristão, satanista ou ateu?

RESUMO

A resposta historicamente mais segura é: Marx foi batizado e educado em ambiente protestante, escreveu textos juvenis com linguagem cristã, mas tornou-se ateu e crítico da religião na juventude adulta. Não há evidência histórica confiável de que tenha sido satanista, isto é, adepto de um culto, igreja ou doutrina religiosa de veneração a Satanás.

Portanto, pode-se falar em uma mudança intelectual, mas não em três fases equivalentes — “cristão, satanista e ateu”. A sequência documentada é melhor descrita assim:

1.Infância e adolescência (1818–1835; 0–17 anos): pertencimento cristão formal, sobretudo luterano/protestante. Marx ainda não era marxista — o próprio Marxismo ainda não existia como doutrina.

2.Juventude universitária (1836–1842; 18–24 anos): crise e transformação filosófica, sob influência dos Jovens Hegelianos, da crítica bíblica e de Feuerbach; aparecem poemas com imagens sombrias e demoníacas. Ele ainda não era marxista; estava se formando como filósofo radical e crítico da teologia.

3.Vida adulta (a partir de 1843–44; 25–26 anos): ateísmo e crítica sistemática da religião como forma de consciência social. Nesse período Marx se aproxima do comunismo e começa a formular posições que mais tarde seriam chamadas de marxistas, mas o sistema conhecido como “marxismo” ainda estava em construção.
“Cristão” e “ateu” também não são categorias perfeitamente simétricas neste caso: o primeiro descreve sobretudo batismo, educação e vocabulário religioso; o segundo descreve a posição filosófica adulta de Marx.


Linha do tempo documentada

FASE 1

1816–1824: família judaica, conversão protestante do pai e batismo de Marx — Marx tinha 0–6 anos

O pai de Marx, Heinrich Marx, descendia de uma família de rabinos, mas foi batizado como protestante em 1816 ou 1817. O contexto incluía restrições profissionais impostas aos judeus na Prússia; a conversão facilitava o exercício da advocacia e a integração social. Em 1824, Heinrich providenciou o batismo de seus filhos, incluindo Karl, na Igreja Evangélica. A mãe de Marx foi batizada somente em 1825.
Isso permite dizer que Marx foi cristão por pertencimento institucional e familiar. Não permite provar, sozinho, uma fé pessoal profunda. A documentação sobre sua infância não autoriza transformar o batismo em uma declaração filosófica madura.

Fonte institucional: a exposição da Biblioteca da Universidade de Chicago registra a ascendência judaica, o batismo do pai em 1816, o batismo dos filhos em 1824 e a posterior adesão de Marx ao ateísmo .

O Oxford Dictionary of National Biography, em verbete assinado por E. J. E. Hobsbawm, confirma o batismo do pai em 1816 ou 1817 .

1835: linguagem cristã nos textos escolares — Marx tinha 17 anos

Em agosto de 1835, aos 17 anos, Marx escreveu o ensaio escolar “Reflexões de um jovem sobre a escolha de uma profissão”. O texto fala de “Deidade”, providência, dever, aperfeiçoamento humano e do exemplo de Cristo. Em um trecho, afirma que “a religião ensina” que o ser ideal imitado pelos seres humanos se sacrificou pela humanidade.

A própria natureza determinou uma esfera de atividade no qual os animais devem se mover, e eles pacificamente se movem dentro dessa esfera, sem tent ou sequer suspeitar de outra.

Para o homem, também, a divindade concedeu um objetivo geral, o de enobrecer a humanidade e a própria divindade. Mas ela deixou para o homem a tarefa de buscar os meios pelo qual esse objetivo pode ser alcançado, deixou para os homens o trabalho de escolher a posição na sociedade mais adequada a cada um, a partir da qual cada indivíduo pode elevar a si mesmo e a sociedade.

Essa escolha é um grande privilégio do homem perante o resto da criação, mas ao mesmo tempo, é um ato que pode destruir sua vida, arruinar seus planos e fazê-lo infeliz. Uma consideração séria dessa escolha é, portanto, a primeira tarefa de um jovem que está começando sua carreira e que não quer deixar suas questões mais importantes ao acaso.

Todos possuem um objetivo em vista, o qual ao menos para o possuidor parece ótimo, e realmente é quando sua mais profunda convicção, a mais profunda voz de seu coração, pronuncia que se é ótimo. A divindade nunca deixa os homens totalmente sem um guia, ela fala suavemente mas com certeza.

Mas essa voz pode ser facilmente afogada, e aquilo que tomamos como inspiração pode ser produto do momento, o qual outro momento pode, talvez, destruir. Nossa imaginação, às vezes, é incendiada, nossas emoções agitadas, fantasmas voam diante de nossos olhos e nós mergulhamos de cabeça nas mais impetuosas sugestões do instinto, as quais nós imaginamos que a própria divindade nos apontou. Mas aquilo que nós ardentemente abraçamos logo nos repele e vemos toda a nossa existência em ruínas.

Devemos, portanto, examinar seriamente se nós realmente fomos inspirados na escolha de nossa profissão, se nossa voz interior aprova isso, ou se essa inspiração é uma ilusão e o que tomamos como um chamado da divindade foi apenas auto decepção. Mas como podemos reconhecer essa ilusão sem rastrear a fonte da própria inspiração?

O que é ótimo brilha, e esse brilho desperta ambição, essa ambição pode facilmente ter produzido a inspiração, ou aquilo que tomamos como inspiração, mas, a razão não pode mais conter o homem que está tentado pelo demônio da ambição e ele mergulha de cabeça no que esse impetuoso instinto sugere: ele não mais escolhe sua posição na vida, em lugar disso, sua posição é determinada pelo acaso e pela ilusão.

Não somos chamados a adotar a posição que nos oferece as mais brilhantes oportunidades, essa não é aquela que, ao longo dos anos que talvez a manteremos, nunca irá nos cansar, nunca irá amortecer nosso zelo, nunca irá deixar nosso entusiasmo crescer frio, mas aquela no qual nós, em breve, veremos nossos desejos insatisfeitos, nossas ideias insatisfeitas e então invejaremos contra a divindade e amaldiçoaremos a humanidade.

Mas não é apenas ambição que pode despertar entusiasmo repentino por uma profissão em particular, nós talvez a tenhamos embelezado em nossa imaginação e embelezamento é a causa em razão da qual isso nos parece o que a vida tem de melhor a oferecer. Nós não a analisamos, não consideramos seus encargos totais, a grande responsabilidade que nos impõe, a vimos apenas de uma grande distância e distância é algo enganoso.

Nossa própria razão não pode nos guiar aqui, pois ela não é baseada na experiência nem na observação profunda, sendo enganada pela emoção e cega pela fantasia. Para quem então devemos nos voltar? Quem pode nos ajudar onde nossa razão nos trai?

Nossos pais, que já atravessaram a estrada da vida e experimentaram a severidade do destino, nosso coração nos diz isso.

E se mesmo assim nosso entusiasmo persistir, se nós continuarmos a amar uma profissão e crer que somos chamados para ela, mesmo após examiná-la a sangue frio, após termos considerados seus encargos e estarmos familiarizados com suas dificuldades, então nós devemos adotá-la, assim nem somos enganados pelo entusiasmo e nem a precipitação nos leva embora.

Mas nem sempre somos capazes de atingir a posição para a qual acreditamos sermos chamados, nossas relações sociais têm, até certo ponto, começado a serem estabelecidas antes mesmo de estarmos em uma posição para determiná-las.

Nossa própria constituição física é frequentemente um ameaçador obstáculo, que não deixa ninguém burlar seus direitos.

É verdade que podemos tentar passar por cima disso, mas então nossa queda será ainda mais rápida, nós estaremos nos aventurando a construir em cima de ruínas, assim toda nossa vida será uma infeliz luta entre o princípio mental e o físico. Mas quem é incapaz de reconhecer os elementos conflitantes dentro de si próprio, como pode ele resistir ao tempestuoso estresse da vida, como ele pode agir calmamente? E, é a partir da calma, sozinha, que grandes atos podem surgir, ela é o único solo onde frutos maduros se desenvolvem com sucesso.

Apesar de não podermos trabalhar por muito tempo e, raramente, felizes com uma constituição física que não é adequada à nossa profissão, o pensamento de sacrificar nosso bem-estar pelo dever, de agir vigorosamente apesar de sermos fracos, continua a surgir. Mas se nós escolhemos uma profissão para qual não possuímos talento, nunca poderemos exercê-la dignamente, nós logo perceberemos, com vergonha, nossa incapacidade e diremos à nós mesmos que somos criaturas inutilmente criadas, membros da sociedade que são incapazes de cumprir sua vocação. Então a mais natural consequência é autodesprezo, e qual sentimento é mais doloroso e menos capaz de ser compensado por tudo o que o mundo exterior pode oferecer? Autodesprezo é uma serpente que roí o peito, suga o sangue vital do coração e mistura-o com seu veneno de misantropia e desespero.

Uma ilusão acerca de nossos talentos é um erro que se vinga de nós, e mesmo que não encontremos com a censura do mundo exterior, isso faz surgir uma dor mais terrível em nosso coração do que a dor infringida pela censura.

Se nós considerarmos tudo isso, e se as condições de nossas vidas permitirem que escolhamos qualquer profissão que gostarmos, nós podemos adotar aquela que nos assegura maior valor(1), aquela baseada em ideias cuja veracidade estamos completamente convencidos, que nos ofereça o âmbito mais amplo para trabalharmos pela humanidade e para nós mesmos chegarmos perto do objetivo geral para o qual cada profissão é apenas um significado: perfeição.

O valor de uma profissão é aquele que mais ergue um homem, o qual transmite alta nobreza à suas ações e seus esforços, que o faz invulnerável, admirado pela massa e elevado acima dela.

Mas valor somente pode ser assegurado por uma profissão a qual não seremos apenas ferramentas servis, mas na qual agimos independentemente em nossa própria esfera. Só pode ser assegurado por uma profissão que não demande atos repreensivos, mesmo se repreensivos apenas na aparência, uma profissão onde o melhor pode seguir com nobre orgulho. A profissão que assegurar essas condições, no mais alto grau, nem sempre é a mais alta, mas sempre é a mais preferível.

Entretanto, assim como uma profissão que não nos assegura valor nos degrada, nós certamente sucumbiremos sob os fardos de uma que se baseia em ideias que mais tarde reconheceremos como falsas.

Não temos outro recurso senão o autoengano e a salvação desesperada, aquela obtida pela auto traição.

Essas profissões que não são tão envolvidas com a vida como são preocupadas com verdades abstratas são as mais perigosas para um jovem cujos princípios ainda não são firmes e cujas convicções ainda não são fortes e inabaláveis.

Ao mesmo tempo, essas profissões parecem ser as mais exaltadas caso tiverem raízes profundas em nossos corações e se somos capazes de sacrificar nossas vidas e esforços pelas ideias que nelas prevalecem.

Elas podem conceder felicidade ao homem que tem vocação para elas, mas destroem quem as adota precipitadamente, sem reflexão, cedendo aos impulsos do momento.

Por outro lado, a grande consideração que temos pelas ideias as quais nossa profissão é baseada nos dá uma alta posição na sociedade, aumenta nosso valor e torna nossas ações incontestáveis.

Quem escolhe uma profissão que valoriza muito, estremecerá a ideia de ser indigno a ela, ele irá agir de maneira nobre apenas se sua posição for nobre.

Mas o guia que deve nos conduzir na escolha de uma profissão é o bem-estar da humanidade e nossa própria perfeição. Não se deve pensar que esses dois interesses possam estar em conflito, que um tenha que destruir o outro, pelo contrário, a natureza humana é constituída de modo que ele apenas pode alcançar sua própria perfeição trabalhando pela perfeição, pelo bem, de seus iguais.

Se ele trabalhar apenas para si mesmo, ele pode até se tornar famoso, um grande sábio, um excelente poeta, mas ele nunca poderá ser perfeito, um homem pleno.

A história chama de grandes esses homens que se enobreceram trabalhando pelo bem comum, a experiência aplaude como o mais feliz aqueles que fizeram o maior número de pessoas felizes, a própria religião nos ensina que o ser a quem todos devem se espelhar se sacrificou pelo bem da humanidade, e quem se atreveria a reduzir a nada tais julgamentos?

Se escolhermos a posição na vida a qual podemos trabalhar pela humanidade, nenhum encardo irá nos pôr para baixo, pois esses encargos são sacrifícios pelo bem de todos, então não experimentaremos alegria mesquinha, limitada e egoísta, mas nossa felicidade irá pertencer à milhões, viveremos de ações silenciosas mas em constante trabalho, e sobre nossas cinzas serão derramadas quentes lágrimas de pessoas nobres. https://www.marxists.org/portugues/marx/1835/08/16.htm acesso em 26/10/26
Em 1837 ele escreveu ao pai, aos 19 anos:

## AO MEU PAI ### I — CRIAÇÃO Espírito Criador, incriado, Veleja em ondas ligeiras ao longe; Os mundos se agitam, vidas são geradas, Seu Olho abarca a eternidade. Seu Semblante reina, tudo inspirando; Em sua magia ardente, as Formas se condensam. Os vazios pulsam, as Eras deslizam, Em profunda oração diante de sua Face; As esferas ressoam, as marés se avolumam, E as estrelas douradas seguem velozes. A Paternidade, em bênção, dá o sinal, E o Todo se banha em Luz divina. Dentro de limites que o próprio ser percebe, O Eterno move-se em silêncio, reflexivo, Até que o Pensamento primordial e sagrado Reveste-se de Formas, de Palavras e Poesia. Então, como liras-trovão vindas de longe, Como o júbilo da Criação profética: “Brilhai mais suavemente, estrelas flutuantes; Repousem agora os mundos na Rocha primordial; Ó imagens do meu Espírito, Sede novamente acolhidas pelo Espírito; Quando os seios palpitantes se moverem diante de vós, Revelai-vos em piedade e amor. “Só vos desvendeis ao Amor; Sede o eterno assento da Eternidade, Assim como vos entreguei suavemente, E lancei sobre vós o raio da minha Alma. ‘Somente a Harmonia pode encontrar sua semelhante; Somente uma Alma pode unir-se a outra Alma.’ De mim ardem vossos Espíritos, Em Formas de elevado significado; Ao Criador retornai, Já não sendo meras imagens, Mas ardendo, circundados pelo olhar amoroso do Homem: Em seu ser dissolvidos — e ele, dissolvido em mim.” MARX, Karl. “To My Father: I. Creation.” In: A Book of Verse Dedicated by Marx to His Father. 1837. In: Marx & Engels Collected Works, v. 1: Karl Marx, 1835–1843. London: Lawrence & Wishart, 2010, p. 534–535.

Ainda ao Pai na mesma data escreveu:

## A CANÇÃO DE UM MARINHEIRO NO MAR Podeis brincar, bater e rolar Ao redor do meu barco, como quiserdes; Ainda assim, tereis de me levar Ao meu destino, pois continuais sendo meus súditos. Lá embaixo fluem as ondas azuis; Meu irmãozinho está lá. Vós o arrastastes para o fundo, E seus ossos se tornaram vosso alimento. Eu era apenas um menino; Certa vez, imprudentemente, ele se lançou, Agarrou-se ao remo E afundou junto a um recife arenoso. Jurei um juramento solene, Pelas ondas do mar salgado, Que me vingaria de vós E vos castigaria sem piedade. Mantive meu juramento e minha palavra, Não os traí. Tenho açoitado vós, e açoitado, E raramente permaneci em terra. Quando ruge o mar tempestuoso, E o sino balança na torre, Quando sopra o furacão, Quando bramem os ventos furiosos, Sou arrancado da minha cama, Do assento seguro e aquecido, Do aconchego tranquilo do lar, Para navegar entre o vento e a tempestade. Luto contra o vento e as ondas; Ao Senhor Deus faço minha oração, E deixo as velas se encherem; Uma estrela verdadeira guia meu caminho. Uma nova força chega, Com o sopro da alegria e do êxtase, E, no jogo da morte, A canção irrompe livre do peito. Podeis brincar, bater e rolar Ao redor do meu barco, como quiserdes; Ainda assim, tereis de me levar Ao meu destino, pois continuais sendo meus súditos.
Marx, Karl. “The Song of a Sailor at Sea.” In: “A Book of Verse”, seção Early Literary Experiments, escrito em 1837, antes de 12 de abril de 1837. In: Marx & Engels Collected Works, vol. 1: Karl Marx, 1835–1843. London: Lawrence & Wishart, 2010, pp. 610–611.


No mesmo exame de conclusão do ginásio, Marx escreveu

“A união dos crentes com Cristo segundo João 15:1–14”. O tema foi uma tarefa escolar de interpretação bíblica, e o texto utiliza linguagem teológica cristã. Isso é evidência de que Marx conhecia e empregava o repertório cristão, não prova conclusiva de que mantivesse uma fé pessoal madura. O contexto escolar e confessional da Prússia precisa ser levado em conta.

 ## A UNIÃO DOS CRENTES COM CRISTO  

### Segundo João 15:1–14, mostrando sua base e essência, sua necessidade absoluta e seus efeitos.

Antes de examinar a base, a essência e os efeitos da união de Cristo com os crentes, vejamos se essa união é necessária, se é determinada pela natureza humana e se o homem não pode, por si mesmo, alcançar o propósito para o qual Deus o trouxe do nada à existência.

Se voltarmos nossa atenção para a história, essa grande mestra da humanidade, encontraremos nela registrado que todos os povos, mesmo quando haviam alcançado o mais alto nível de civilização, quando os maiores homens haviam surgido de seu seio, quando as artes haviam florescido em todo o seu esplendor e quando as ciências haviam resolvido os problemas mais difíceis, ainda assim não conseguiram livrar-se das correntes da superstição.

Veremos que não haviam concebido ideias dignas e verdadeiras nem sobre si mesmos nem sobre a Divindade; que sua moral e sua ética jamais se mostraram livres de elementos estranhos e de limitações indignas; e que suas virtudes deviam sua origem mais a uma grandeza rudimentar, a um egoísmo desenfreado, à paixão pela fama e por feitos audaciosos do que à busca da verdadeira perfeição.

Também os povos antigos, os selvagens que ainda não ouviram o ensinamento de Cristo, revelam uma inquietação interior, um temor da ira de seus deuses e uma convicção íntima de sua própria culpa ao oferecerem sacrifícios a esses deuses, imaginando que poderiam expiar seus pecados por meio deles.

De fato, Platão, o maior sábio da Antiguidade, o divino Platão, expressa em mais de uma passagem um profundo anseio por um ser superior cuja aparição realizaria a busca insatisfeita pela verdade e pela luz.

Assim, a história dos povos ensina-nos a necessidade da união com Cristo.

Quando consideramos também a história dos indivíduos e a natureza humana, é verdade que sempre vemos no peito do homem uma centelha de divindade, uma paixão pelo bem, uma busca pelo conhecimento e um anseio pela verdade. Mas as centelhas do eterno são apagadas pelas chamas do desejo; o entusiasmo pela virtude é sufocado pela voz sedutora do pecado e desprezado assim que a vida nos faz sentir todo o seu poder.

A busca pelo conhecimento é substituída por uma busca vil pelos bens terrenos; o desejo pela verdade é apagado pelo poder doce e lisonjeiro das mentiras. E assim o homem permanece como o único ser da natureza que não cumpre seu propósito, o único membro da totalidade da criação que não é digno do Deus que o criou.

Mas o Criador benevolente não poderia odiar sua obra. Ele desejou elevá-la até Si e enviou Seu Filho, por meio de quem nos declarou:

> “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado.”  > *(João 15:3)*

> “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós.”  > *(João 15:4)*

Tendo visto, portanto, como a história dos povos e a consideração dos indivíduos demonstram a necessidade da união com Cristo, examinemos agora a última e mais segura prova: a própria palavra de Cristo.

Em nenhum lugar Ele expressa mais claramente a necessidade da união consigo mesmo do que na bela parábola da videira e dos ramos, na qual Ele chama a Si mesmo de videira e a nós de ramos.

O ramo não pode dar fruto por si mesmo. Por isso Cristo diz: “Sem mim nada podeis fazer.” Ele expressa isso de modo ainda mais forte ao dizer:

> “Se alguém não permanecer em mim...”  > *(João 15:4–6)*

Devemos, contudo, entender isso como aplicável somente àqueles que puderam conhecer a palavra de Cristo, pois não podemos julgar a decisão de Deus a respeito de povos e indivíduos desse tipo, uma vez que nem sequer somos capazes de compreendê-la.

Nosso coração, nossa razão, a história e a palavra de Cristo dizem-nos, portanto, em voz alta e convincente, que a união com Ele é absolutamente essencial; que sem Ele não podemos cumprir nosso objetivo; que sem Ele seríamos rejeitados por Deus; e que somente Ele pode nos redimir.

Assim, penetrados pela convicção de que essa união é absolutamente essencial, desejamos descobrir em que consiste esse elevado dom: esse raio de luz que desce de mundos superiores para animar nosso coração e nos elevar, purificados, aos céus. Queremos compreender qual é sua natureza interior e sua base.

Uma vez compreendida a necessidade dessa união, sua base — nossa necessidade de redenção, nossa natureza inclinada ao pecado, nossa razão vacilante, nosso coração corrompido e nossa iniquidade diante de Deus — torna-se claramente visível, e não precisamos investigar mais o que ela é. 

Mas quem poderia expressar a natureza dessa união de maneira mais bela do que Cristo, na parábola da videira e dos ramos? Quem, em longos tratados, poderia revelar diante de nossos olhos, em todas as suas partes, a base mais íntima dessa união tão completamente quanto Cristo o fez nestas palavras:

> “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador.”  > *(João 15:1)*

> “Eu sou a videira, vós sois os ramos.”  > *(João 15:5)*

Se o ramo pudesse sentir, com que alegria olharia para o lavrador que cuida dele, que cuidadosamente o livra das ervas daninhas e o prende firmemente à videira, da qual ele extrai o alimento e a seiva para produzir flores mais belas.

Na união com Cristo, portanto, dirigimos acima de tudo nossos olhos amorosos para Deus, sentimos por Ele a mais ardente gratidão e nos ajoelhamos alegremente diante d’Ele.

Então, quando, por meio da união com Cristo, um sol mais belo nasce para nós, quando sentimos toda a nossa iniquidade mas, ao mesmo tempo, nos alegramos com nossa redenção, podemos pela primeira vez amar a Deus, que antes nos parecia um governante ofendido, mas agora aparece como um pai perdoador e um mestre bondoso.

Mas, se pudesse sentir, o ramo não apenas olharia para cima, para o lavrador; ele também se aconchegaria afetuosamente à videira, sentir-se-ia estreitamente ligado a ela e aos ramos que dela brotaram e amaria os outros ramos, ainda que apenas porque o lavrador cuida deles e a videira lhes dá força.

Assim, a união com Cristo consiste na comunhão mais íntima e vital com Ele: em tê-Lo diante dos olhos e no coração; em estar impregnado do mais elevado amor por Ele; e, ao mesmo tempo, voltar o coração para nossos irmãos, aos quais Ele nos ligou estreitamente e pelos quais também Se sacrificou.

Mas esse amor por Cristo não é estéril. Ele não apenas nos preenche com a mais pura reverência e respeito por Ele; também nos leva a cumprir Seus mandamentos, sacrificando-nos uns pelos outros e sendo virtuosos — virtuosos unicamente por amor a Ele.  

*(João 15:9–14)*

Este é o grande abismo que separa a virtude cristã de qualquer outra virtude e a eleva acima de todas as demais. Esse é um dos maiores efeitos que a união com Cristo produz no homem.

A virtude já não é uma imagem obscura e distorcida, como era apresentada pela filosofia dos estoicos. Ela já não é fruto de uma teoria severa do dever, como a encontramos entre todos os povos pagãos. Tudo o que ela realiza, realiza-o por meio do amor a Cristo, por meio do amor a um Ser divino. E, quando nasce dessa fonte pura, mostra-se livre de tudo o que é terreno e verdadeiramente divina.

Todos os aspectos repulsivos desaparecem; tudo o que é terreno é suprimido; toda grosseria é removida; e a virtude se torna mais brilhante por haver se tornado, ao mesmo tempo, mais suave e mais humana.

A razão humana jamais poderia retratá-la dessa maneira; sua virtude permaneceria sempre uma virtude limitada e terrena.

Quando o homem alcança essa virtude, essa união com Cristo, espera calmamente os golpes do destino, enfrenta corajosamente as tempestades da paixão e suporta sem desânimo a ira dos iníquos. Pois quem poderia oprimi-lo? Quem poderia roubar-lhe o Redentor?

Ele sabe que aquilo que pede será realizado, pois pede somente em união com Cristo e, portanto, pede somente aquilo que é divino. E quem poderia deixar de ser elevado e consolado por essa certeza que o próprio Salvador proclama?

> “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito.”  > *(João 15:7)*

Quem não suportaria o sofrimento com alegria, sabendo que, permanecendo em Cristo e por meio de suas obras, o próprio Deus é glorificado e que, por sua perfeição, o Senhor da criação é exaltado?

> “Nisto é glorificado meu Pai: que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos.”  > *(João 15:8)*

Portanto, a união com Cristo concede elevação interior, consolação no sofrimento, serena confiança e um coração aberto ao amor pela humanidade, a tudo o que é nobre e a tudo o que é grandioso — não por ambição, não pelo desejo de fama, mas unicamente por causa de Cristo.

Assim, a união com Cristo concede uma alegria que o epicurista busca inutilmente extrair de sua filosofia frívola, e que o pensador mais profundo procura nas profundezas ocultas do conhecimento. É uma alegria conhecida somente pela mente simples e infantil que está ligada a Cristo e, por meio d’Ele, a Deus — uma alegria que torna a vida mais elevada e mais bela.> *(João 15:11.)* Marx, Karl. “The Union of Believers with Christ According to John 15:1–14, Showing Its Basis and Essence, Its Absolute Necessity, and Its Effects.” In: Marx & Engels Collected Works, vol. 1: Karl Marx, 1835–1843. London: Lawrence & Wishart, 2010, pp. 636–639.


FASE 2

1836–1837: poesia sombria, e a origem da leitura “satanista” — Marx tinha 18–19 anos

Entre 1836 e 1837, Marx escreveu poemas, baladas e o fragmento dramático Oulanem. Alguns textos usam imagens de inferno, destruição, desespero, demônios e rebelião contra Deus.
O documento mais citado são trechos isolados da carta ao pai de 10 de novembro de 1837, na qual Marx descreve sua produção literária juvenil e menciona Oulanem.
Esses textos são relevantes, mas não demonstram satanismo. Eles pertencem ao ambiente do romantismo, do drama gótico e da poesia de juventude. Neles, Satanás ou o demoníaco funcionam como imagens literárias de negação, desespero e revolta. Não há nesses materiais uma profissão de fé satânica, um ritual, uma organização religiosa ou uma declaração de culto a Satanás.

1-Carta aos pai em 1837

A carta de 1837 é uma fonte primária importante porque mostra o próprio Marx refletindo sobre sua fase literária. A transcrição está disponível no arquivo de obras de Marx . O estudo de William M. Johnston sobre os versos de Marx de 1836–1837 confirma que se trata de uma produção poética juvenil que merece análise literária, não de um documento automático de conversão religiosa .

"Um cortina caiu, meu santo dos santos caiu em pedaços e novos deuses tiveram que ser introduzidos....Este, meu querido filho, criado sob os cuidados do luar, atira-me como uma falsa sereia nos braços do inimigo."



O que significa "meu Santos dos Santos" no texto?

Originalmente, o "Santo dos Santos" (ou Sanctorum) é um termo bíblico e judaico que designava o lugar mais sagrado do Templo de Jerusalém, onde ficava a Arca da Aliança e onde apenas o Sumo Sacerdote podia entrar.

No contexto da carta de Marx, a expressão é usada em sentido figurado para representar:

As suas crenças e convicções mais íntimas e intocáveis: O jovem Marx refere-se aos seus ideais de juventude, à sua poesia altamente idealista, aos seus dogmas sentimentais e filosóficos anteriores (influenciados por Kant e Fichte).

Quando ele diz que o seu "santo dos santos foi despedaçado", significa que a sua visão de mundo anterior ruiu por completo, destruída pelas novas descobertas intelectuais e pelo choque com a realidade concreta.

 
A que "inimigo" ele se refere? O diabo?

Não. Ao contrário de leituras sensacionalistas que tentam ver nesse "inimigo" uma entidade demoníaca ou um pacto oculto, a própria carta esclarece o mistério linhas abaixo.

Marx escreve que suas tentativas filosóficas — expressas no manuscrito de 24 folhas intitulado Kleantes — acabaram por atirá-lo "como uma falsa sereia nos braços do inimigo".

Nesse contexto histórico e biográfico, o "inimigo" é a filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (o hegelianismo).


Marx começou rejeitando Hegel por achar sua melodia "grotesca e pedregosa", tentando seguir caminhos próprios (como a poesia e o idealismo puro). No entanto, ele percebeu que foi tragado inevitavelmente para dentro do sistema de pensamento hegeliano, rendendo-se àquilo que ele próprio tentava evitar ou combater intelectualmente no início. O "inimigo" simboliza, portanto, a corrente de pensamento que acabou conquistando e dominando a sua mente.

Se desejar ler a carta completa, está abaixo. Se não quiser pule a carta

Carta aos pai em 1837:


Berlim, 10 de novembro de 1837
Querido pai!

Há momentos da vida que se situam como signos de fronteira diante duma etapa passada, mas ao mesmo tempo apontam com determinação para uma nova direção.

Em tais momentos de transição, sentimo-nos compelidos a contemplar o passado e o presente com o olhar de águia do pensamento para chegar à consciência da nossa posição real. Sim, até a história mundial gosta desse olhar retrospectivo e se contempla, o que frequentemente lhe dá a aparência do retrocesso e do sossego enquanto apenas se acomoda para se compreender e penetrar espiritualmente na sua própria obra, a obra do espírito. Mas em tais momentos o indivíduo torna-se lírico, já que toda metamorfose é em parte um canto do cisne, em parte a abertura dum grande novo poema que busca forma em cores ainda difusas ou esplêndidas. E, no entanto, gostaríamos de erguer um monumento ao que já foi vivido, de forma que resgate na sensação o lugar que se perdeu para a acção. E onde ele encontraria um asilo mais santo do que no coração do pai, onde o mais benevolente dos juízes, o mais íntimo dos amigos, o sol do amor, cujo fogo aquece o mais íntimo dos nossos esforços? De que maneira melhor receberia muito do que é errado e condenável o seu perdão e o seu arranjo, senão quando a manifestação duma circunstância essencialmente necessária se revelar, como alguém poderia, polo menos, se afastar do frequentemente irritante jogo de azar e da má orientação do espírito , areprovação do coração deformado?

Quando eu o deixei, um novo mundo nasceu para mim, o do amor; e foi o início dum amor embriagado pola nostalgia e sem esperança. Mesmo a viagem a Berlim, que noutras circunstâncias teria me fascinado ao mais alto grau e me levado a contemplar a natureza, teria me inflamado de ansiedade vital, deixou-me frio, ostensivelmente deprimido, pois as rochas que eu contemplava não eram mais rudes, não eram mais ousadas do que as impressões da minha alma; as grandes cidades não eram mais vivas do que meu sangue, os banquetes da pensão não eram mais ornamentados e indigestos do que os pacotes de fantasia que carregava comigo e, finalmente, a arte não era tão bonita quanto Jenny.(1)

Assim que cheguei a Berlim, quebrei todos os laços que persistiam até então, fiz poucas visitas com fastio e tentei me aprofundar nas ciências e na arte.

De acordo com a situação espiritual, então a poesia lírica deveria necessariamente ser o primeiro projecto, polo menos o mais agradável, o mais próximo; mas, como resultado da minha situação e de todo o meu desenvolvimento anterior, foi puramente idealista. A minha arte, o meu céu, tornou-se um além tão distante quanto o meu amor. Tudo o que é real se dilui, tudo que é difuso não tem limites. Ataques ao presente, sentimentos amplamente pulsados ​​e sem forma; nada da natureza, tudo construído na lua, o antagonismo total entre o que é e o que deveria ser; reflexões retóricas em vez de pensamentos poéticos, mas talvez um certo calor de sensação e uma busca de alento caracterizam todos os poemas dos três primeiros volumes, que Jenny recebeu por mim. Todo o prolongamento duma fibra que não conhece limites surge nas mais diversas formas e faz da «poetização« um «alargamento».

Mas a partir de agora, a poesia pode e deve ser apenas uma companhia; tinha que estudar jurisprudência e sentia acima de tudo o impulso de empreendê-la com filosofia. Ambas as cousas estavam tão intimamente ligadas que trabalhei de forma puramente acrítica, apenas acadêmica, em parte com Heineccius, Thibaut e as Fontes,(2) traduzindo, por exemplo, os dois primeiros livros de Pandectas para o alemão, visto que em parte procurava introduzir uma Filosofia do Direito por meio do domínio do direito. Como introdução, avancei algumas frases metafísicas e levei este infeliz trabalho para o Direito Público, um trabalho de cerca de trezentas páginas.(3)

Acima de tudo, destacou-se aqui, da forma mais inquietante, o mesmo contraste entre o que é real e o que deveria ser, que é típico do idealismo e que deu origem à desajeitada e incorrecta divisão. Em primeiro lugar vinha a «metafísica do direito» assim baptizada, tão piedosamente, por mim; Isso significava os princípios, as reflexões, as definições, separados de todos os direitos reais e de toda a forma real do Direito, como acontece em Fichte, só que no meu caso parecia mais moderno e com menos conteúdo. Além disso, a forma não científica do dogmatismo matemático, em que o sujeito vagueia ao redor da cousa, raciocina aqui e acolá sem que a própria cousa se conforme desdobrando-se em toda a sua riqueza e como ser vivo era o primeiro obstáculo para vir a entender o que é verdade. O triângulo permite ao matemático construir e provar que permanece uma representação pura no espaço, que não se desenvolve em algo novo; deve ser colocado próximo a outras cousas e então assumirá uma posição diferente e este diferente somado ao mesmo dá-lhe diferentes relações e verdades. Ao contrário, na expressão concreta do mundo vivo do pensamento, como é o Direito, o Estado, a natureza, como toda filosofia, o próprio objecto deve ser espreitado, deve ser perseguido; classificações arbitrárias não devem ser impostas de fora, a razão (Vemunft) da própria cousa deve continuar a rolar como algo em conflito consigo mesma e encontrar em si mesma a sua unidade.

Em segundo lugar vinha a Filosofia do Direito, isto é, na minha opinião então, a consideração do desenvolvimento do pensamento no direito positivo romano, como se o direito positivo no seu processo de pensamento (e não estou pensando nas suas determinações puramente finitas) pudesse ser algo real em geral, diferente da conformação do conceito de direito, que, entretanto, deveria ocupar toda a primeira parte.

Esta parte foi posteriormente dividida, ademais, em «Doutrina do Direito Formal e Material», da qual a primeira deveria descrever a forma pura do sistema na sua sucessão e na sua estrutura, a sua divisão e extensão, enquanto a segunda seria dedicada ao conteúdo condensando a forma no seu conteúdo. Um erro que compartilho com o Sr. v. Savigny, como descobri mais tarde no seu erudito trabalho sobre a propriedade, apenas com a diferença de que ele chama de definições formais do conceito «encontrar o lugar que tal e tal doutrina toma no sistema romano (mas fingido)» e chama definições materiais do mesmo «a doutrina do positivo, que os romanos atribuíram a um conceito assim fixado»(4), enquanto eu entendia como uma forma a necessária arquitectônica das formações do conceito, enquanto via a matéria como a qualidade necessária dessas formações. O erro foi acreditar que uma poderia e deveria desenvolver-se separadamente da outra, e assim não obtive uma forma real, mas um móvel, uma escrivaninha com compartimentos, sobre os quais mais tarde borrifei areia. O conceito é precisamente o mediador entre a forma e o conteúdo. Num desenvolvimento filosófico do Direito, tem que passar dum para o outro, a forma não deve ser mais do que a continuação do conteúdo. Cheguei assim a uma classificação do assunto como pode ser projectado para a sua classificação mais fácil e superficial; mas o espírito do Direito e a sua verdade pereceram. Todo o Direito dividia-se em contratual e extracontratual. Tomo a liberdade, até a divisão do Jus publicum, que também é tratado na parte formal, de desenhar o esquema para um melhor entendimento(5).

Mas por que devo preencher as folhas com questões que já descartei? Classificações tricotómicas permeiam toda a obra, é escrita num estilo que nunca se cansa da amplitude e as representações romanas foram abusadas da maneira mais bárbara para integrá-las, forçando-as, no meu sistema. Por outro lado, dessa forma ganhei amor e perspectiva sobre o assunto, polo menos em certo sentido.

No final do direito privado material, percebi a falsidade do todo, que no esquema básico está próximo do kantiano e que na exposição se separa completamente dele, e novamente ficou claro para mim que sem filosofia era impossível entrar no assunto. Assim, pude conscienciosamente dirigir-me mais uma vez nos seus braços e escrever um novo sistema filosófico fundamental, e no final fui forçado a reconhecer o seu carácter errado e o cunho desencaminhado das minhas tentativas iniciais.

Além disso, adquiri o hábito de fazer trechos de todos os livros que li, como o Laoconte de Lessing,(6) Erwin de Solger,(7) História da Arte de Winckelmann,(8) História da Alemanha de Luden,(9) e depois disso, fazer anotações e reflexões. Ao mesmo tempo, traduzi a Germania de Tácito, o Libri tristium de Ovídio, e comecei a estudar em particular, isto é, com textos de gramática, inglês e italiano, nos quais fiz poucos progressos; li o Direito penal de Klein e os seus anais e as últimas novidades da literatura, mas também as mais recentes.

No final do semestre procurei novamente a dança de musas e a música de sátiros e no último caderno que lhe enviei, o idealismo passa por um humor obrigatório (Escorpião e Félix), um drama malsucedido (Oulanem) até finalmente se transformar e se tornar uma forma de arte pura, na maioria das vezes sem objectos entusiasmantes, sem um fluxo exagerado de ideias.

E ainda são estes últimos poemas os únicos em que o reino da verdadeira poesia de repente me iluminou como por um golpe de magia ─ oh, o golpe foi destrutivo no início! ─ como um distante palácio de fadas, e todas as minhas criações se desintegraram.

Que em meio a ocupações tão diversas tivera que passar muitas noites sem dormir, que muitos combates tiveram que ser travados, que toda essa agitação externa e interna teve que ser suportada, que no final não saí muito enriquecido e também tive a natureza negligenciada, a arte, o mundo, separaram-me dos amigos, o meu próprio corpo parecia fazer essa meditação. Um médico aconselhou-me ir ao campo e então cruzei a grande cidade em direção a Stralow. Não suspeitei que ali haveria me transformar dum moço magro e pálido num homem de corpo robusto.

Um cortina caiu, meu santo dos santos caiu em pedaços e novos deuses tiveram que ser introduzidos.

A partir do idealismo, que eu, aliás, comparava e alimentava nas ideias kantianas e fichtianas, comecei a considerar a busca da ideia na própria realidade. Se os deuses já viveram acima da terra, agora se tornaram o centro dela. Tinha lido fragmentos da filosofia de Hegel, cuja grotesca e pedregosa melodia não me agradava. De novo quis mergulhar no mar, mas com a firme intenção de encontrar a natureza espiritual tão necessária, concreta e completa como a corporal e não mais me exercitar na arte da esgrima, mas sim em segurar a pérola pura ao sol.

Escrevi um diálogo de aproximadamente 24 folhas: Kleantes ou sobre o ponto de partida e o progresso necessário da filosofia. Aqui a arte e o conhecimento se integravam até certo ponto, completamente separados. E eu, um robusto caminhante, comecei a trabalhar na própria obra, num desenvolvimento filosófico-dialético da divindade enquanto ela se manifesta como conceito em si, como religião, como natureza, como história. A minha última frase era o início do sistema hegeliano e deste trabalho, para o qual me tornei relativamente familiarizado com as ciências naturais, com Schelling, com a história; esse trabalho que me deu tanta dor de cabeça e está escrito assim [...](10) (uma vez que deveria ser uma nova lógica) que mal posso orientar-me já nele. Este, meu querido filho, criado sob os cuidados do luar, atira-me como uma falsa sereia nos braços do inimigo.

Por alguns dias não pude pensar nada com o desgosto, corri feito um louco polos jardins do Spree cujas águas sujas «lavam as almas e enxaguam o chá»; Até fiz uma viagem de caça com meu hoteleiro, corri para Berlim e queria abraçar qualquer pessoa que andasse por perto.

Logo depois dediquei-me aos estudos positivos, o estudo da propriedade de Savigny, o Direito Penal de Feuerbach e Grolmann. De verborum signifcatione de Cramer, o sistema de Pandecta de Wenig-Ingenheim e Mühlendof: a sua Doctrina pantektarum em que ainda estou trabalhando e, finalmente, títulos isolados lidos de acordo com Lauterbach, processo civil e, acima de tudo, direito canônico, do qual li e resumi quase na íntegra a primeira parte, a Concordia discordantium canonum de gratiam, bem como o anexo, as Institutiones de Lancelotti.

Mais tarde traduzi em parte a Retórica de Aristóteles, li o famoso Bacon de Verulam: De augmentis scientlarum; Estive muito ocupado com Reimarus, cujo livro Sobre os Instintos Artísticos dos Animais(11) li com verdadeiro prazer; Também entrei no direito alemão, mas principalmente na medida em que comecei a estudar as capitulares dos reis francos e as cartas dos papas a eles.

Da tristeza pela doença de Jenny e os meus supostos ensaios espirituais decadentes, do desgosto corrosivo de ter que fazer um ídolo duma opinião odiosa, adoeci, como já lhe escrevi, querido pai. Saudável de novo, queimei toda a poesia e todos os rascunhos de contos, etc., na loucura de pensar que poderia esquecê-los por completo, o que em todo caso até agora não tive nenhuma prova em contrário.

Durante a minha doença, tive a oportunidade de conhecer Hegel, do começo ao fim, assim como todos os seus discípulos. Por meio de repetidos encontros com amigos em Stralow, caí no meio dum «Clube de Doutores», entre o quais havia vários privatdozenten(12) e o mais íntimo dos meus amigos berlinenses, o Dr. Rutemberg. Aqui, nas discussões, muitas opiniões conflitantes foram expressas e cada vez com mais força aderi à filosofia contemporânea do mundo da qual pensava fugir, mas havia silenciado todos os sons, uma verdadeira fúria irônica caiu sobre mim, como poderia facilmente acontecer depois de ter negado tantas cousas. A isso se somou o silêncio de Jenny e não pude descansar até ter subjugado a modernidade e o ponto de vista da concepção da ciência contemporânea por meio dalgumas produções medíocres como «a visita», etc.

Se nesta ocasião eu provavelmente não lhe pinto com clareza ou detalhes tudo o que aconteceu no último semestre e embora ignore todas os matizes, por favor, desculpe-me pela urgência por falar sobre o presente, querido pai.

O Sr. v. Chamisso enviou-me uma nota extremamente insignificante na qual me diz «lamentar que o almanaque(13) não precisasse das minhas contribuições, uma vez que está impresso há muito tempo». Engoli com nojo. O livreiro Wigand enviou o meu plano ao doutor Schmidt, editor da miscelânea da Casa Wunder, de bom queijo e má literatura. Anexo aqui está a sua carta; este ainda não respondeu. Enquanto isso, não renuncio de forma alguma a esse plano, especialmente porque todas as estrelas da estética da escola hegeliana aceitaram, graças à mediação do professor Bauer, que desempenha um grande papel entre eles, e meu assistente, Dr. Rutemberg.

Quanto à minha carreira na câmara(14), querido pai, recentemente entrei em contacto com um conselheiro, Schmidthämmer, que me recomendou a entrar como justitiarius depois de fazer o terceiro exame jurídico, que eu gostaria mais, na verdade, pois prefiro a jurisprudência a todas as ciências administrativas.

Este senhor me disse que ele próprio e muitos outros do Tribunal Superior da Vestfália em Münster se tornaram conselheiros em três anos, o que não é difícil se é que se está disposto a fazer muito trabalho, como se sabe, já que aqui os prazos não são fixos como em Berlim e em outros lugares. Se posteriormente, como consultor, for promovido ao doutorado, as oportunidades também são mais fáceis de poder começar ao mesmo tempo como professor extraordinário, como aconteceu com o Sr. H. Gartner em Bonn, que escreveu uma obra medíocre sobre as Constituições Provinciais e, além disso, só é conhecido por ser admitido pola escola hegeliana de juristas. Mas querido pai, o melhor dos pais, não seria possível conversarmos estes assuntos pessoalmente? A situação de Eduardo, os sofrimentos da querida mãinha, os seus males, embora agora espere que não seja nada grave, tudo isso faz-me desejar e me faz necessário voltar correndo para vós. Eu já estaria lá se certamente não duvidasse da sua autorização e aprovação.

Acredite em mim, querido pai, que nenhum propósito egoísta me move (embora eu ficasse feliz em ver Jenny novamente), mas é um pensamento que me empurra e não devo contradizê-lo. Seria para mim até um passo difícil em muitos aspectos, mas como escreve minha única, minha doce Jenny, essas considerações não têm peso quando se trata do cumprimento dos deveres que nos são sagrados.

Peço-lhe, querido pai, seja qual for a sua decisão, que não mostre esta carta ou pelo menos esta folha à mãe. Minha chegada prematura talvez pudesse confortar e erguer uma mulher tão maravilhosa e grandiosa.

A carta que escrevi para a mãinha foi escrita muito tempo antes que as amadas linhas de Jenny me alcançassem e, portanto, inconscientemente escrevi muitas cousas que não eram completamente correctas ou que o eram em mínimo grau.

Na esperança de que as nuvens que pesam sobre a nossa família se dissipem aos poucos e me seja concedido sofrer e chorar com vós e talvez saborear na vossa proximidade o profundo e íntimo interesse, o amor incomensurável que muitas vezes mal consigo tornar manifesto; na esperança de que você também, querido e eternamente amado pai, levando em consideração as muitas mudanças no meu humor, me desculpe quando o coração parece ter errado enquanto o espírito de luta o atordoava e que em breve você estará restabelecido completamente para que me seja possível apertá-lo no meu coração e possa comunicar comigo plenamente,

Seu filho que lhe ama eternamente,

Karl.

P. S. Desculpe, querido pai, a grafia ilegível e o estilo ruim. Já são cerca de quatro da manhã, a vela está quase totalmente apagada e os olhos estão turvos. Um verdadeiro mal-estar apoderou-se de mim, não poderei apaziguar os fantasmas excitados até me encontrar na sua amada companhia.

Por favor, saúde minha querida e maravilhosa Jenny. Já li a sua carta uma dúzia de vezes, na qual sempre encontro novos encantos. É em todos os aspectos, também estilisticamente, a mais bela carta duma senhora que possa imaginar

 Notas:

1) Jenny von Westphalen, com quem Marx havia se comprometido pouco antes de escrever esta carta. O casamento ocorreu em junho de 1843. 
2) Refere-se ao trabalho de von Savigny, As fontes do Direito. 
(3) A obra a que Marx alude não foi preservada. 
(4) As passagens a que Marx alude aqui que ele não cita literalmente pertencem à primeira seção da obra de Friedrich Carl von Savigny, O Direito de Propriedade. Um Tratado de Direito Civil. (retornar ao texto)

(6) Laokoon oder Über die Grenzen der Malerei und Poesie; Laocoonte ou além dos limites da pintura e da poesia (1766).

(7) Erwin, Vier Gespräche über das Schöne und die Kunst [Erwin, ou quatro diálogos sobre beleza e arte] (2 vols., 1815) [Uma obra sobre estética, no qual discordou de August Wilhelm Schlegel, e que influenciou Hegel e Heinrich Heine.]

(8) Geschichte der Kunst des Altertums; História da arte na antiguidade, Dresda, 1764.

(9) Geschichte des Teutschen Volkes (12 vols., 1825-1845); História dos povos alemãos.

(10) Não pode ser decifrado no manuscrito. Provavelmente dous trechos de palavras riscados. [N. do editor alemão] (
(11) Allgemeine Betrachtungen über die Triebe der Thiere, hauptsächlich über ihre Kunsttriebe. Zum Erkenntniss des Zusammenhanges der Welt, des Schöpfers und unser selbst. (1760); Considerações gerais sobre os instintos dos animais, principalmente sobre seus instintos artísticos. Para o conhecimento da conexão entre o mundo, o Criador e nós mesmos.

(12) Privatdozenten ("professores particulares"). O primeiro elo da carreira acadêmica alemã. Não recebiam salário da Universidade, mas renda proporcional ao número de alunos.
(13) Almanaque alemão das musas do ano de 1839, editado em Berlim por Chamisso e Gaudy.

(14) Carreira judicial. Os Julgados alemães são chamados de "câmaras".

2- OULANÉM É SATANISTA?

Não, é um drama, uma tragédia mau sucedida como vimos na carta escrita ao pai. Não é uma declaração pessoal de Marx. Há varios personagens na obra.

Análise das passagens de Oulanem 

Cena 1 — Pertini fala em manipular o destino

“Você faria do Destino uma marionete? Faria do Céu um brinquedo para seus cálculos? Fabricaria Deuses a partir de seus velhos lombos gastos?”

O que chama a atenção: o personagem trata o destino e o Céu como coisas que poderiam ser manipuladas. A expressão sobre fabricar deuses também pode sugerir uma tentativa de usurpar o poder divino.

É satanismo? Não diretamente. É uma fala provocadora, com implicações de rebelião contra a ordem divina. O contexto dramático é essencial para determinar a intenção.

Cena 2 — Pertini menciona o inferno e Mefistófeles

“Você está pensando em Fausto e Mefistófeles.”

Mefistófeles é uma figura demoníaca da tradição literária de Fausto, associada à tentação e ao pacto com o diabo.

Na mesma cena, aparecem repetidamente referências ao inferno, aos demônios e à blasfêmia. Pertini também fala de uma união que só poderia ser estabelecida no inferno.

O que chama a atenção: a linguagem transforma o conflito entre os personagens em algo semelhante a uma condenação espiritual.

É satanismo? A referência a Mefistófeles é demonológica, mas mencionar uma figura demoníaca em uma obra literária não significa adorá-la. Nesse diálogo, o inferno também funciona como metáfora de destruição e conflito.

Cena 3 — Oulanem amaldiçoa a existência

Esta é a cena mais relevante para a sua investigação.


TRECHO 1 — A dor eterna


“Eternidade! É dor eterna, morte inconcebível, incomensurável!”

Análise

A eternidade não é apresentada como salvação ou felicidade, mas como sofrimento interminável. É uma inversão sombria da concepção cristã da vida eterna.


TRECHO 2 — A revolta contra o Criador

“Rugir cantos fúnebres para o Criador, com desprezo na fronte!”

Análise

O personagem expressa desprezo diante do Criador. A imagem é de confronto e hostilidade, não de submissão religiosa.


TRECHO 3 — A maldição em desafio

“Preso ao domínio da compulsão, amaldiçoando em desafio!”

Análise

O personagem se percebe preso à existência, mas responde com uma maldição. Essa atitude pode ser interpretada como uma rebelião metafísica contra a ordem do universo.


TRECHO 4 — Os seres humanos e Deus

“E nós, nós, macacos de um Deus frio.”

Análise

A expressão rebaixa a condição humana e retrata Deus como indiferente ou insensível. É uma imagem hostil à visão de um Deus amoroso.

TRECHO 5 — A serpente

“A víbora tão voluptuosamente quente.”

Análise

A serpente ou víbora pode evocar a tentação, o veneno e a figura bíblica da serpente do Gênesis. Porém, o trecho não identifica explicitamente essa víbora com Satanás. A associação é possível, mas não deve ser tratada como fato demonstrado.

O ponto mais importante da Cena 3

Oulanem não se limita a mencionar o inferno ou os demônios. Seu monólogo expressa uma revolta contra a própria existência e contra o Criador. Ele deseja que a maldição destrua aquilo que a poesia teria criado e imagina desaparecer no vazio.

Essa combinação de desprezo pelo Criador, maldição, sofrimento eterno e desejo de aniquilação é o motivo mais forte para uma leitura religiosa sombria da peça.

Ainda assim, há uma diferença entre um personagem expressar uma revolta de caráter satânico e o autor professar o satanismo. A primeira afirmação encontra apoio direto no texto; a segunda exigiria outras evidências.

Cena 4 — Amor, paixão e a presença do mal

Nesta cena, Lucindo se apaixona por Beatrice. O diálogo começa com imagens de beleza, luz e união espiritual, mas a própria Beatrice sente que pode existir algo maligno por trás daquela ligação.

“Pode haver outros espíritos cujo engano nos prende com laços traiçoeiros, por mais doces que sejam.”

Mais adiante, ela descreve uma sensação de que há algo perturbador entre os dois:

“Um som sibilante, introduzido por demônios que se regozijam.”

O que chama a atenção: o amor aparece acompanhado de pressentimentos de perigo espiritual. A felicidade e a atração não eliminam a possibilidade de engano, sofrimento ou destruição.

É satanismo? A referência aos demônios é explícita, mas a cena não apresenta uma invocação ritual ou um culto satânico. A imagem demoníaca funciona como sinal de ameaça e possível corrupção daquilo que parecia puro.

 O nome Oulanem seria uma mensagem satânica? enagrama?

Essa é uma das alegações mais conhecidas sobre a peça.

O autor Robert Payne, citado por Gary North em Requiem for Marx, relacionou o nome Oulanem a Manuelo e, por associação, a Immanuel, nome tradicionalmente entendido como “Deus conosco”. North utiliza essa hipótese como parte de sua interpretação religiosa da juventude de Marx.

Há, porém, um cuidado importante:
  • Oulanem e Manuelo: as letras podem ser reorganizadas para formar o mesmo conjunto.

  • Immanuel: não possui exatamente as mesmas letras, de modo que a ligação depende de uma associação adicional.

  • Intenção satânica: mesmo que o nome tenha sido escolhido como anagrama deliberado, isso não demonstra, por si só, culto ao diabo, pacto ou ritual.

Portanto, o anagrama é uma pista interpretativa, não uma prova histórica de satanismo.

 O que a carta de Marx ao pai revela?

A carta de 10 de novembro de 1837 é especialmente relevante porque é um documento escrito pelo próprio Marx, e não uma interpretação de terceiros.

Nela, Marx descreve suas experiências intelectuais, suas dificuldades com a poesia e sua mudança de orientação filosófica. Também escreve que seu “céu” e sua arte se haviam tornado algo distante da realidade. Mais adiante, ao comentar seus escritos, considera Oulanem um drama fantástico malsucedido.


Isso permite concluir que:

  • A peça pertence a uma fase de intensa experimentação intelectual e literária.

  • Marx estava passando por mudanças filosóficas importantes.

  • A carta não confessa um pacto com Satanás nem descreve uma cerimônia ocultista.

É uma fonte primária valiosa, mas não resolve sozinha todas as questões sobre as crenças pessoais do jovem Marx.

 Veredito: o que está comprovado e o que é especulação?

Alegação

Avaliação

A peça contém referências ao inferno e a demônios.

Confirmado pelo texto.

Oulanem expressa desprezo pelo Criador e deseja a destruição da existência.

Confirmado pelo monólogo.

A serpente pode evocar simbolismo bíblico.

Interpretação plausível, não identificação explícita com Satanás.

O nome Oulanem pode ser um anagrama deliberado.

Hipótese possível; a intenção não está demonstrada. E não tem as letras de Immanuel

Marx fez um pacto com o diabo.

Não comprovado por evidências históricas confiáveis encontradas nesta pesquisa.

A peça prova que Marx era satanista.

Conclusão que vai além das evidências disponíveis.

6. Fontes para continuar investigando

Lucas Parreira Álvares — “O Diabo, a serpente, e outras faces etnológicas na obra de Karl Marx”  — estudo acadêmico sobre o uso de imagens religiosas na obra de Marx.


Minha conclusão final: sob uma perspectiva cristã, é perfeitamente compreensível considerar o monólogo de Oulanem blasfemo e profundamente sombrio. 

O texto contém imagens de revolta contra Deus que merecem análise séria. Entretanto, uma acusação histórica de satanismo exige mais do que linguagem demoníaca em uma tragédia juvenil.

Mesmo que a pelça possa ser analisada como literatura de conteúdo satânico , isso não porva que seu autor praticava satanismo. São duas afirmações diferentes, e as fontes disponíveis sustentam muito mais fortemente a primeira do que a segunda.

 Se desejar ver a peça inteira leia abaixo, se não vá para o 3 (a donzela pálida)


OULANEN

OULANEM -Uma tragédia

Karl Marx — Experimentos literários da juventude

 Personagens


Oulanem, um viajante alemão.

Lucindo, seu companheiro.

Pertini, um cidadão de uma cidade montanhosa da Itália.

Alwander, um cidadão da mesma cidade.

Beatrice, sua filha adotiva.

Wierin.

Perto, um monge.



A ação se passa dentro ou diante das casas de Pertini e Alwander, bem como nas montanhas.


ATO I Cena 1
Uma cidade nas montanhas.

Uma rua. Oulanem e Lucindo; Pertini diante de sua casa.

Pertini: Senhores, a cidade inteira está apinhada de estrangeiros, atraídos até este lugar pela fama, para ver as maravilhas dos arredores. Em suma, ofereço-lhes minha casa. Pois em nenhuma hospedaria encontrarão lugar. Assim, tudo o que posso proporcionar com meus modestos recursos, terei prazer em colocar à disposição de vocês. Sinto-me verdadeiramente inclinado à amizade por vocês. Não é lisonja.

Oulanem: Agradecemos-lhe, estrangeiro, e só receio que sua opinião a nosso respeito seja elevada demais.

Pertini: Muito bem... muito bem... Então deixemos os cumprimentos de lado.

Oulanem: Mas pretendemos permanecer aqui por bastante tempo.

Pertini: Cada dia a menos que vocês passem desfrutando deste lugar será uma perda para mim.

Oulanem: Mais uma vez, agradecemos calorosamente.

Pertini (chamando um criado): Rapaz! Acompanhe os cavalheiros até o quarto. Desejam descansar um pouco depois da viagem; também querem ficar a sós e trocar suas pesadas roupas de viagem por vestimentas mais leves.

Oulanem: Retiramo-nos, mas voltaremos em breve.

(Oulanem e Lucindo saem com o criado.)

Pertini (sozinho, olhando cautelosamente ao redor):

É ele, por Deus, é ele! O dia chegou!

Ele, o velho amigo que jamais consegui esquecer, assim como minha consciência nunca me dá descanso.

Excelente! Agora trocarei minha consciência: ele será ela daqui em diante, sim, ele, Oulanem.

Portanto, consciência, que tudo corra bem contigo.

Pois todas as noites ficavas diante de minha cama; adormecias quando eu adormecia, levantavas-te comigo — conhecemo-nos bem, homem, dou-lhe minha palavra!

Além disso, sei que há outros aqui; eles também são Oulanem, também são Oulanem!

Há anéis de morte nesse nome. Pois que ele ressoe até que, em seu próprio dono abjeto, ressoe pela última vez.

Mas espere, agora consegui! Tudo surge tão claramente quanto o ar, tão firmemente quanto meus ossos, vindo das profundezas de minha alma.

Seu juramento ergue-se diante de meus olhos, armado para a batalha!

Encontrei-o, e farei com que ele também o encontre!

Meu plano está traçado — tu és a própria alma dele.

Sim, tu, Oulanem, és a própria vida dele.

Queres manipular o Destino como se fosse uma marionete?

Transformar o Céu em brinquedo para teus cálculos?

Fabricar deuses a partir de teus lombos velhos e exauridos?

Agora, representa teu papel com perfeição, meu pequeno deus!

Mas espera — espera por tua deixa — isso deixo por minha conta!

(Entra Lucindo.)

Cena 2

Pertini e Lucindo.

Pertini: Por que está tão sozinho, meu caro jovem senhor?

Lucindo: Curiosidade. Os velhos não encontram nada de novo.

Pertini: Ora! Na sua idade!

Lucindo: Não, mas, se minha alma alguma vez alimentou um desejo intenso, se meu coração alguma vez foi movido por um anseio premonitório, foi o de chamá-lo de Pai, de ser seu filho: daquele homem cujo espírito viril e apaixonado pode absorver mundos inteiros; cujo coração irradia o esplendor dos deuses. Se o senhor não o conhecesse, talvez não pudesse conceber que um homem assim pudesse existir.

Pertini: De fato, soa muito belo e terno quando, dos lábios cálidos e voluptuosos da juventude, o elogio à velhice jorra como línguas de fogo. Soa tão moral, como um sermão bíblico, exatamente como a história da dama Susana ou aquela do filho pródigo.

Mas ouso perguntar se você conhece esse homem com quem seu coração parece estar tão intimamente ligado.

Lucindo: Parece? Apenas aparência — aparência e ilusão? O senhor odeia a humanidade?

Pertini: Bem, no mínimo, sou um homem!

Lucindo: Perdoe-me se o ofendi. O senhor demonstra grande disposição para com o Estrangeiro, e aquele que se aproxima do Viajante em amizade não tem o espírito encerrado em si mesmo.

O senhor procura uma resposta. Resposta terá.

Estamos ligados por uma união estranha, profundamente entrelaçada no fundo de nossos corações, que, como tochas brilhantes em chamas, os espíritos de seu peito envolvem em resplendor, como se demônios benevolentes da Luz, com ternura ponderada, tivessem unido nós dois.

Assim o conheço desde há muito, muito tempo — tanto tempo que a Memória mal consegue sussurrar sobre nosso primeiro encontro.

Como nos encontramos, não sei.

Pertini: De fato, soa romântico. E, no entanto, meu caro jovem senhor, não passa de som: um som que serve apenas para desviar uma pergunta.

Lucindo: Juro por isso.

Pertini: Pelo que está jurando, senhor?

Lucindo: Não o conheço e, no entanto, de fato o conheço.

Ele esconde algum mistério profundamente dentro do peito, que ainda não me é permitido conhecer — não agora... ainda não...

Essas palavras se repetem todos os dias, a cada hora.

Pois veja: nem sequer conheço a mim mesmo!

Pertini: Isso é ruim!

Lucindo: Estou aqui, tão isolado, tão separado.

O mais miserável dos homens se orgulha daquilo que é quando, sorrindo, conta a história da linhagem que o gerou, guardando no coração cada pequeno detalhe.

Eu não posso fazer isso.

Os homens me chamam Lucindo, mas poderiam chamar-me de forca ou de árvore.

Pertini: E o que deseja, então? Amizade com a forca? Parentesco, talvez? Bem, nisso posso ajudá-lo!

Lucindo (com fervor): Não brinque com sílabas e sons vazios enquanto me enfureço por dentro.

Pertini: Enfureça-se, meu amigo, até que a fúria se esgote.

Lucindo (indignado): O que quer dizer com isso?

Pertini: Dizer? Nada!

Sou um filisteu de mente árida, nada mais; um homem que simplesmente chama cada hora de hora, que vai dormir à noite apenas para se levantar quando chega a manhã; que conta as horas até que tenha contado todas e o relógio pare, e os vermes se tornem os ponteiros que marcam o tempo.

E assim por diante, até o Dia do Juízo Final, quando Jesus, acompanhado do anjo Gabriel, proclamará a sentença ao som de sua trombeta irada, lerá a lista de nossos pecados registrados, nos colocará à direita ou à esquerda e passará seu punho divino por nossas peles para descobrir se somos cordeiros ou lobos.

Lucindo: Ele não me nomeará, porque não tenho nome.

Pertini: Muito bem! É assim que gosto de ouvi-lo falar!

Mas, como sou apenas um filisteu caseiro, meus pensamentos são domésticos, e manuseio ideias como você manuseia pedras e areia.

Assim, se um homem não consegue nomear a própria família, mas aparece com outra, é um rebento ilegítimo — nascido do lado errado dos lençóis.

Lucindo: O quê? O que foi isso?

Que o Sol se torne negro e a Lua, plana, e que nenhum dos dois emita sequer um raio de luz; mas aqui surge um som, uma suspeita, e a Vida pesa tudo isso.

Pertini: Meu amigo, não precisa improvisar de maneira tão extravagante. Acredite em mim, não sou propenso a ataques de nervos!

Mas os rebentos ilegítimos são muitas vezes verdes e cobertos de musgo; sim, seguem seu próprio caminho exuberante e crescem, brilhantes, em direção aos próprios Céus, como se soubessem que nasceram da alegria, gerados por uma união que não foi enfadonha nem servil.

Pois veja: rebentos dessa espécie são sátiras!

A Natureza é uma poetisa; o Matrimônio está sentado numa cadeira, com sua touca na cabeça e todos os seus acessórios, o rosto carrancudo e deformado por caretas.

A seus pés jaz um pergaminho empoeirado, rabiscado com as blasfêmias do pároco.

Os salões lúgubres da igreja compõem o cenário, e a turba grosseira contempla tudo de boca aberta ao fundo.

Dêem-me os rebentos ilegítimos!

Lucindo (indignado): Por Deus, basta!

Que é isso, homem? O que quer dizer? Fale claramente!

Mas, pelo Eterno, eu também falarei com o senhor.

O que estou perguntando? Não está tudo claro diante de mim? O Inferno não escancara sua boca? Não se ergue diante de meus olhos como a própria figura ressequida da Morte, encarando-me e murmurando ameaças de tempestade?

Mas, homem, acredite em mim: não foi fácil lançar do seu punho diabólico e ressequido essa marca ardente de fogo dentro de meu peito.

Não pense que está jogando dados com um menino, arremessando-os com força destruidora contra sua cabeça infantil.

O senhor foi rápido demais comigo.

Agora — preste atenção — somos parceiros de jogo.

Tornou-se íntimo de mim depressa demais. Mostre tudo o que se agita em seu peito vil e serpentino!

Se for apenas desconfiança ou escárnio, eu os devolverei à sua garganta, e o senhor próprio engolirá seu veneno até sufocar.

E então jogarei com o senhor!

Mas fale! Eu exijo!

Pertini: Exige? Você pensa em Fausto e Mefistófeles. Imagino que tenha meditado profundamente sobre eles.

Digo-lhe que não. Guarde seu desejo para si, e lançarei poeira nos olhos tolos dele.

Lucindo: Cuidado! Não sopre sobre as brasas incandescentes, ou as chamas se erguerão e o reduzirão a cinzas!

Pertini: Uma frase! Uma frase vazia! O único que será consumido pelo fogo será você mesmo!

Lucindo: Eu mesmo! Que assim seja! Para mim, não sou nada!

Mas o senhor... ah, o senhor, a quem meus braços juvenis envolvem e ao redor de cujo peito se entrelaçam em frenesi!

O abismo se escancara, uma noite profunda para nós dois.

Se o senhor afundar, sorrindo, eu o seguirei e lhe sussurrarei:

“Desça! Venha comigo! Camarada!”

Pertini: Parece que você é dotado de imaginação. Já sonhou muito em sua vida?

Lucindo: Exatamente. Sou um sonhador, sim, um sonhador.

Que conhecimento eu poderia esperar do senhor, que nada sabe?

O senhor apenas nos viu, mas não nos conhece; ainda assim, lança contra mim desprezo e blasfêmia.

O que estou esperando? Mais alguma coisa de sua parte?

O senhor não tem mais nada... mas eu tenho muito mais para lhe dar.

A culpa, o veneno, a vergonha — o senhor terá de redimi-los por mim.

Traçou o círculo, e nele não há espaço para nós dois.

Agora, use sua habilidade para saltar.

Assim como o Destino traça, assim será traçado. Que assim seja!

Pertini: Você deve ter decorado esse final em alguma aula, tirado de um livro de tragédias velho e empoeirado.

Lucindo: É verdade, esta é a tragédia que estamos encenando.

Vamos! Onde e como quiser. O senhor escolhe.

Pertini: Agora, em qualquer lugar, a qualquer hora, em toda parte — e em lugar nenhum!

Lucindo: Covarde! Não zombe de minhas palavras, ou escreverei “covarde” em seu próprio rosto e gritarei isso em todas as ruas!

E o espancarei em público se não me acompanhar, se ousar continuar lançando suas piadas fracas e gastas enquanto meu sangue gela dentro das veias.

Nem mais uma palavra! Siga-me ou não, tanto faz. Sua sentença está pronunciada, covarde e canalha!

Pertini (furioso): Repita isso, rapaz! Repita essas palavras!

Lucindo: Com prazer, mil vezes, se isso lhe der alegria! Se fizer sua bílis ferver e correr até que o sangue jorre furiosamente de seus olhos, então aqui está de novo: canalha e covarde!

Pertini: Acertaremos nossas contas. Grave isso em sua mente.

Ainda há um lugar que pode nos unir, e esse lugar é o Inferno — o Inferno não para mim, mas para você!

Lucindo: Para que contar sílabas, se podemos resolver tudo aqui mesmo?

Então voe para o Inferno e diga aos demônios que fui eu quem o enviou!

Pertini: Só mais uma palavra.

Lucindo: Para que servem as palavras?

Não as ouço. Sopre bolhas ao vento, desenhe em seu rosto as expressões que correspondam às suas palavras — não as vejo.

Traga armas e deixe que elas falem. Porei nelas todo o meu coração e, se ele não se partir, então...

Pertini (interrompendo-o): Não seja tão ousado, meu rapaz, nem tão inexperiente!

Você não tem absolutamente nada a perder, nada!

É uma pedra que caiu da Lua, na qual alguém, em algum lugar, gravou uma única palavra.

Você soletrou as letras: elas dizem “Lucindo”.

Veja! Nesse quadro vazio, não ousarei apostar a mim mesmo, minha vida e minha honra.

Quer usar meu sangue como tinta para seu artista? Devo ser o pincel que lhe empresta cor?

Estamos separados demais por posição e condição social.

Devo enfrentá-lo tal como você é?

Sei o que sou. Diga-me: o que é você?

Você não sabe, não é, não possui nada a perder!

Como um ladrão, procura empenhar comigo uma honra que jamais brilhou em seu peito bastardo.

Quer me enganar, colocando seu título vazio como garantia de meu valor legítimo?

Não!

Primeiro conquiste honra, nome e vida. Você ainda não é nada. Depois, terei prazer em apostar minha honra, meu nome e minha vida contra os seus!

Lucindo: Então é isso, covarde! Quer salvar a própria pele?

Calculou tudo com tanta engenhosidade, não foi? Com tanta engenhosidade em seu cérebro obtuso!

Não se iluda: mudarei sua resposta e escreverei “covarde” em seu lugar.

Desprezarei o senhor como desprezaria uma fera enlouquecida. Vou envergonhá-lo, sim, perante o mundo inteiro.

E então poderá explicar, com todos os detalhes, às tias, aos tios, aos filhos, a todos:

“Eu me chamo Lucindo, sim, Lucindo. Esse é meu nome; poderia ter sido outro. É assim que me chamam, embora pudesse ter sido diferente.

Aquilo que os homens chamam de existência, eu não possuo.

Mas você é aquilo que é: um covarde!”

Pertini: Muito bem. Muito bonito.

Mas suponha que eu pudesse lhe dar um nome — ouviu? Um nome?

Lucindo: O senhor mesmo não tem nome e, no entanto, pretende dar um a mim?

O senhor, que nunca me viu, exceto nesta ocasião?

E ver é uma mentira, a zombaria eterna que nos persegue: vemos, e isso é tudo.

Pertini: Muito bem. Mas quem apreende algo além daquilo que vê?

Lucindo: O senhor não.

Em todas as coisas, só enxergou aquilo que é: um canalha.

Pertini: É verdade. Não me deixo enganar facilmente pelo primeiro olhar.

Mas aquele homem... ele não nasceu ontem!

Acredite em mim: já viu muita coisa nesta vida.

E se nós nos conhecêssemos?

Lucindo: Não acredito.

Pertini: Mas não existe um poeta, um esteta sombrio, extraordinariamente estranho, alvo de zombarias, que passa as horas em meditações sutis, que gostaria de fazer rimas com a Vida e que, de bom grado, seria ele próprio o autor do poema da Vida?

Lucindo: Ah! Pode muito bem ser uma coincidência. O senhor não me engana!

Pertini: Coincidência! É assim que falam os filósofos quando a razão não vem socorrê-los.

Coincidência — tão fácil de dizer, uma única sílaba.

Um nome também é uma coincidência. Qualquer pessoa poderia chamar-se Oulanem se não tivesse outro nome.

Portanto, é pura coincidência que eu o chame assim.

Lucindo: O senhor o conhece? Céus! Fale! Em nome do Céu!

Pertini: Conhece a recompensa que se dá aos meninos? Seu nome é... silêncio.

Lucindo: É repugnante ter de lhe pedir um favor, mas eu lhe suplico, por tudo o que lhe é caro!

Pertini: Caro? Acha que vou negociar?

Um covarde é surdo a qualquer súplica.

Lucindo: Então, se quiser apagar a acusação de covardia, terá de falar imediatamente!

Pertini: Vamos duelar agora. Lutarei com você tal como é. Você me serve perfeitamente. Vamos lutar!

Lucindo: Não me empurre até o extremo, não me leve àquela fronteira além da qual já não há limites, onde tudo termina!

Pertini: Ouçam-no! Queremos experimentar os extremos!

Assim como o Destino traça, assim será traçado. Que assim seja!

Lucindo: Ah! Não há saída? Não há esperança alguma?

Seu peito é duro como ferro, todos os sentimentos estão ressequidos, corroídos e murchos pelo desprezo.

Ele mistura veneno e o esfrega como se fosse bálsamo. E sorri.

Esta pode ser sua última hora, homem, sim, sua última hora!

Aproveite-a, absorva-a, pois em menos de um instante estará diante de seu Juiz.

Quebre, portanto, a cadeia de suas ações perversas com uma última boa ação, uma única palavra, pronunciada tão levemente quanto o ar!

Pertini: Foi coincidência, meu bom amigo. Acredite, eu mesmo acredito na coincidência.

Lucindo: Em vão! Tudo... tudo...

Mas espere, seu tolo superficial! Não será resolvido dessa maneira, não, por Deus!

Seu olhar aguçado o enganou mais uma vez.

Vou chamá-lo aqui pessoalmente. Então poderá ficar diante dele, face a face, olho no olho, como um menininho apanhado fazendo algo errado.

Não pode me deter, homem! Saia da frente!

(Sai correndo.)

Pertini: Um plano maior agora o salva, meu rapaz; Pertini não esquece, acredite em mim!

(Grita.) Lucindo! Ei, Lucindo! Pelo amor de Deus, volte!

(Lucindo retorna.)

Lucindo: O que quer? Saia do meu caminho!

Pertini: Eis aí sua honra!

Vá dizer ao digno cavalheiro que brigamos; que você me desafiou, mas, sendo um bom menino — um menino muito bom e piedoso! —, arrependeu-se, pediu perdão e foi perdoado.

Depois, derrame uma lágrima piedosa, beije-lhe a mão e corte a vara para suas próprias costas arrependidas!

Lucindo: O senhor me obriga a isso.

Pertini: Você se deixa obrigar.

Isso soa tão moral quanto um livro de lições para crianças.

Você acredita em Deus?

Lucindo: Devo confessar isso ao senhor?

Pertini: Você não exige que eu confesse a você? Pois confessarei. Mas diga: acredita em Deus?

Lucindo: O que isso tem a ver com o senhor?

Pertini: Não está na moda, e por isso gostaria muito de ouvi-lo responder com clareza.

Lucindo: Não acredito da maneira como chamam isso de crença; e, no entanto, conheço-O como conheço a mim mesmo.

Pertini: Falaremos disso quando o humor e o momento forem apropriados. A maneira como acredita não me importa, desde que acredite. Muito bem. Jure por Ele.

Lucindo: O quê? Jurar ao senhor?

Pertini: Sim, deve jurar que sua língua jamais revelará uma única sílaba.

Lucindo: Por Deus, eu juro.

Pertini: Então jure que sentirá apenas amizade por mim.

Veja, não sou tão mau assim — apenas franco.

Lucindo: Por Deus, eu não juraria, nem por todo o ouro do mundo, que o amo ou que o estimo.

Não posso e jamais poderei jurar isso.

Mas que tudo o que passou seja apagado, como se fosse um sonho repugnante e maligno.

Mergulharei tudo nas profundezas onde os sonhos desaparecem, nas ondas revoltas do esquecimento.

Isso eu juro ao Ser sagrado, de quem os mundos giram e surgem no espaço, que, com um olhar, dá origem à Eternidade.

Eu juro!

Mas agora quero a recompensa pelo meu juramento.

Pertini: Venha! Vou conduzi-lo a um lugar tranquilo e lhe mostrar muitas maravilhas: desfiladeiros rochosos, lagos que brotaram da Terra vulcânica e repousam em suas águas arredondadas; lugares onde os anos passam em sucessão silenciosa.

Então a tempestade finalmente cessará, e...

Lucindo: O que é isso? O senhor fala de pedras, baías, vermes e lama?

Mas rochedos e penhascos se erguem por toda parte; em todos os lugares, uma fonte borbulha.

Que importa se é impetuosa, baixa ou elevada?

Ainda existem lugares misteriosos, capazes de nos manter encantados e arrebatados.

Contemplá-los desperta entusiasmo em meu peito; e, se esse entusiasmo explodir, será apenas uma brincadeira, nada mais.

Portanto, leve-me para onde quiser, sim, até esse destino!

Não hesite, não vacile. Vamos!

Pertini: Primeiro, o estrondo do trovão precisa cessar, para que o relâmpago puro possa purificar seu peito por dentro.

Levarei você a um lugar onde, temo muito, desejará permanecer por tempo demais.

Lucindo: Ah, seja qual for o destino de nossa jornada, seguirei o senhor, se me conduzir.

Pertini: Desconfiado!

(Ambos saem.)


Cena 3 Um aposento na casa de Pertini. Oulanem está sozinho, sentado a uma mesa, escrevendo. Há papéis espalhados. De repente, ele se levanta de um salto, caminha de um lado para outro, para abruptamente e permanece de braços cruzados.

Oulanem: Tudo está perdido! A hora já expirou, e o tempo permanece imóvel.
Este universo pigmeu desmorona.

Em breve, abraçarei a Eternidade e lançarei ao seu ouvido a maldição gigantesca da Humanidade.

Eternidade! É dor eterna, morte inconcebível, imensurável!

Uma artimanha perversa, concebida para nos atormentar, a nós, que não passamos de mecanismos de relojoaria, máquinas cegas, acionadas para sermos os tolos do calendário, escravos do Tempo.

Existimos apenas para que, ao menos, alguma coisa aconteça.

E nos deterioramos para que haja deterioração!

Os mundos devem ter precisado de mais uma coisa: uma agonia muda e abrasadora que os fizesse girar.

A Morte ganha vida e calça sapatos e meias.

A planta que sofre, a erosão inerte da pedra, os pássaros que não encontram canto para expressar a dor de sua vida etérea, a discórdia universal e o esforço cego do Todo para se libertar de si mesmo, sendo esmagado em conflitos...

Tudo isso agora se ergue, ganha duas pernas e um peito capaz de sentir a maldição da existência!

Ah! Preciso enroscar-me na roda de fogo e dançar meu frenesi no círculo da Eternidade!

Se houvesse alguma outra coisa capaz de me devorar, eu saltaria nela, ainda que precisasse destruir um mundo que se erguesse entre mim e ela!

Minha maldição prolongada o despedaçaria, e eu lançaria meus braços ao redor do Ser cruel.

Ele me abraçaria e passaria silenciosamente.

Então eu também afundaria, em silêncio, no vazio.

Afundar completamente, deixar de ser — ah, isso seria a Vida!

Mas, em vez disso, sou arrastado pela correnteza elevada da Eternidade, condenado a rugir elegias fúnebres ao Criador, com o desprezo estampado na fronte!

Preso ao poder da compulsão, amaldiçoando em desafio!

Que o olhar envenenado lance sua destruição!

Acaso ele consegue expulsar os mundos pesados que nos aprisionam?

Presos ao medo eterno, estilhaçados e vazios, presos ao próprio bloco de mármore do Ser!

Presos, presos para sempre, eternamente presos!

Os mundos veem tudo isso e continuam girando, uivando a canção fúnebre de sua própria morte.

E nós, nós, os macacos de um Deus frio, ainda acariciamos, com dor frenética contra o peito amoroso, a víbora voluptuosamente cálida que se ergue como Forma Universal e, do alto de seu lugar, escancara um sorriso diante de nós!

E, em nossos ouvidos, até que todo o asco se consuma, a onda cansada ruge, avançando sempre, sempre adiante!

Agora, depressa! O dado está lançado, tudo está pronto.

Destruam aquilo que somente a mentira da poesia concebeu.

Uma maldição concluirá aquilo que outra maldição concebeu!

(Senta-se à mesa e escreve.)

Cena 4 A casa de Alwander; primeiro, diante da casa. Lucindo e Pertini.

Lucindo: Por que me trouxe aqui?

Pertini: Por causa de um belo pedaço de mulher, só isso! Veja com seus próprios olhos e, se ela soprar suavemente uma paz melodiosa em sua alma, então avance!

Lucindo: O quê? Está me levando a prostitutas?

E justamente agora, quando toda a Vida desaba com força esmagadora sobre meus ombros, quando meu peito se infla irresistivelmente num frenesi de autodestruição, quando cada respiração me traz mil mortes...

E agora, uma mulher!

Pertini: Ah, continue delirando, jovem! Respire fogo infernal e destruição à vontade!

Que prostitutas? Entendi mal o que quis dizer?

Veja, ali está a casa. Parece um bordel?

Acha que quero ser seu cafetão e usar a própria luz do dia como lanterna?

Isso é ridículo!

Mas entre primeiro. Talvez lá descubra o que deseja.

Lucindo: Vejo sua armadilha.

O material de que a construiu é muito barato.

O senhor está tentando escapar daquele que o mantém preso.

Agradeça por eu precisar ouvi-lo neste momento; mas suas manobras para ganhar tempo lhe custarão a vida.

(Entram na casa. A cortina cai e outra se ergue. Um aposento moderno e elegante. Beatrice está sentada no sofá, com um violão ao lado. Lucindo, Pertini e Beatrice.)

Pertini: Beatrice, trago-lhe um jovem viajante, um cavalheiro agradável, meu parente distante.

Beatrice (a Lucindo): Seja bem-vindo!

Lucindo: Perdoe-me se não encontro palavras, se não consigo expressar a surpresa que invade meu coração.

Uma beleza tão rara subjuga o espírito; o sangue salta, mas nenhuma palavra consegue sair.

Beatrice: Belas palavras, jovem senhor. Está de bom humor.

Agradeço à sua disposição, não ao favor que a Natureza me negou tão cruelmente, pois é sua língua que fala, e não seu coração.

Lucindo: Ah, se meu coração pudesse falar, se pudesse apenas derramar aquilo que a senhora despertou em suas profundezas!

As palavras seriam todas chamas de melodia, e cada respiração, uma eternidade inteira, um Céu, um Império infinitamente vasto, onde todas as vidas cintilariam com pensamentos repletos de suaves anseios e harmonias.

O mundo inteiro se encerraria tão docemente em seu abraço, irradiando o esplendor da mais pura beleza, pois cada palavra levaria apenas o seu nome!

Pertini: Não leve a mal, jovem senhora, se lhe explicar que ele é alemão e está sempre falando de Melodia e Alma.

Beatrice: Alemão! Mas gosto dos alemães e tenho orgulho de pertencer à mesma origem.

Venha, sente-se aqui, senhor alemão.

(Oferece-lhe um lugar no sofá.)

Lucindo: Obrigado, minha senhora.

(À parte, a Pertini.)

Vá embora! Ainda há tempo; estou perdido aqui!

Beatrice (constrangida): Eu disse algo impróprio?

(Lucindo quer falar, mas Pertini o interrompe.)

Pertini: Poupe-nos de seus floreios e elogios!

Não foi nada, Beatrice; apenas alguns assuntos que ainda preciso resolver com ele, com urgência.

Lucindo (confuso, em voz baixa): Por Deus, Pertini, o senhor está brincando comigo!

Pertini (em voz alta): Não leve isso tão a sério, não fique tão assustado!

A senhora confia em minha palavra, não é mesmo?

Beatrice, ele pode ficar até que eu volte, não pode?

E, por favor, lembre-se: prudência. Você é um estrangeiro, portanto, nada de tolices.

Beatrice: Ora, jovem senhor, foi tão pouco acolhedora minha recepção que o senhor pensa que eu o expulsaria de nossa casa, sem cerimônia, sendo um estrangeiro e amigo de Pertini, um velho amigo nosso?

As portas desta casa hospitaleira estão abertas a todos.

Não precisa me lisonjear, mas deve ser justo.

Lucindo: Por Deus, sua bondade graciosa me comove profundamente!

A senhora fala tão suavemente quanto os anjos.

Perdoe-me se, dominados e vencidos pela torrente selvagem de uma paixão há muito esquecida, meus lábios disseram aquilo que deveriam ter ocultado.

Mas veja o céu, tão claro e luminoso, sorrindo para nós do reino azul das nuvens.

Veja as cores pulsando, tão vivas e brilhantes, ora envoltas em sombras, ora banhadas por uma luz suave, misturando-se em harmonias tão delicadas e completas: um quadro encantador, uma única alma inspirada.

Contemple isso e depois permaneça em silêncio, se seus lábios obedecerem.

Mas não! Seu coração salta, enfeitiçado; prudência e cautela desapareceram.

Os lábios precisam dizer aquilo que mantém seu coração cativo, assim como a lira eólia começa a soar quando Zéfiro a envolve com suas asas trêmulas.

Beatrice: Não consigo encontrar uma repreensão dentro de meu coração; o senhor reveste o veneno com uma arte tão doce!

Lucindo (à parte, a Pertini): Maldito canalha, mas também um bom canalha! O que devo fazer? Saia daqui, por Deus!

Pertini (em voz alta): Ainda o atormenta o fato de eu ter lhe tirado as palavras da boca há pouco.

Ele teria falado de maneira belíssima, mas minha interrupção o impediu.

Não se preocupe, porém. Beatrice acredita que o senhor gentilmente quis poupá-la de um pouco de sua grandiloquência. Como qualquer piada alemã, depois de engolida, não é fácil de digerir.

Vou embora.

Lucindo (em voz baixa): Mas, homem...

Pertini (em voz alta): Pense nas simpatias que logo surgem entre o estômago e o coração!

Voltarei depressa para buscá-lo, ou talvez permaneça tempo demais neste lugar encantador.

(À parte.) Preciso ir. Enquanto ele corteja a moça, tratarei de fazer com que o velho estrague tudo.

(Sai Pertini. Lucindo permanece confuso.)

Beatrice: E ainda preciso convidá-lo mais uma vez a sentar-se?

Lucindo: Sentarei com prazer, se a senhora realmente o desejar.

(Senta-se.)

Beatrice: Nosso amigo Pertini costuma ter humores bastante estranhos.

Lucindo: Sim, estranhos! Muito estranhos! Estranhíssimos!

(Pausa.)

Perdoe-me, senhora: a senhora estima esse homem?

Beatrice: Há muito tempo ele é um verdadeiro amigo desta casa e sempre me tratou com grande gentileza.

E, no entanto... não sei por quê... não consigo suportá-lo.

Muitas vezes é violento. Muitas vezes, de seu peito, parece vir uma voz...

Perdoe-me, ele é seu amigo — mas algum espírito secreto chama de maneira estranha, numa voz de que não gosto.

É como se uma escuridão interior e turbulenta recuasse diante da luz aberta do amor, temendo responder a ela; como se ele abrigasse um mal pior do que aquele que sua língua expressa, pior até do que aquele que seu coração ousa conceber.

Mas isso não passa de uma suposição, e faço mal em confiar-lhe isso tão cedo.

É uma suspeita; e a suspeita é uma víbora.

Lucindo: A senhora se arrepende, então, de ter confiado isso a mim?

Beatrice: Se fosse um segredo que me dissesse respeito...

Mas, ah, o que estou dizendo? Já conquistei sua confiança?

Ainda assim, não há mal algum em contar-lhe tudo o que sei. Eu poderia confiar isso a qualquer pessoa, pois nada sei que já não seja conhecido por todos.

Lucindo: Por todos? Muito bem! A senhora seria bondosa com todos?

Beatrice: E o senhor não seria?

Lucindo: Ó anjo, ó ser adorável!

Beatrice: O senhor me assusta. O que significam essas palavras? Muda de assunto tão repentinamente!

Lucindo: Preciso agir depressa, pois a hora está chegando.

Por que hesitar? A morte está em cada minuto.

Posso esconder isso?

É um milagre: acabo de conhecê-la, e, por mais estranho que pareça, poderíamos ter nos conhecido há muitos anos.

É como se a música que eu ouvia soar dentro de meu próprio coração tivesse encontrado uma forma viva, e o vínculo espiritual que nos une tivesse rompido a barreira, transformando-se numa realidade vibrante e calorosa.

Beatrice: Não vou negar: o senhor não me parece um estranho, embora ainda seja estranho para mim, desconhecido.

Mas, assim como espíritos obscuros não permitiram que nos víssemos até esta hora, devemos admitir que talvez existam outros espíritos cujo engano nos prende por laços traiçoeiros, por mais doces que pareçam.

Não devemos desprezar a prudência e a sabedoria.

O relâmpago mais forte não cai necessariamente de um céu escuro.

Lucindo: Ó bela filósofa do coração! Ó Deus, já não consigo resistir, pois a senhora me obriga!

Não imagine que deixei de respeitá-la só porque meu coração se tornou ousado.

Ele pulsa até quase explodir; todos os meus nervos estão tensos.

Já não consigo resistir. Em breve partirei, para muito longe daqui, separado da senhora.

Então, mundos, precipitem-se no abismo! Caiam, caiam!

Perdoe-me, minha doce menina, perdoe a hora que me impele com tamanha violência.

Eu a amo, Beatrice, juro por Deus!

Amor e Beatrice são uma única palavra que só consigo pronunciar num único fôlego. E com esse pensamento eu caminharia até a própria morte.

Beatrice: Já que nada de bom pode resultar disso, peço-lhe que não fale mais assim.

Se — mas isso não pode acontecer — o senhor conquistasse meu coração agora, imediatamente, certamente deixaria de me respeitar.

Diria que sou apenas uma mulher qualquer, pronta, como milhares de outras, para uma aventura amorosa.

Se essa ideia sequer cruzasse sua mente, o amor e a honra estariam perdidos.

Isso significaria que o senhor não se importava comigo nem um pouco, e eu teria de carregar o peso do remorso.

Lucindo: Ser terno e adorável, ouça minha súplica!

Se pudesse ler o que está em meu peito, saberia que nunca amei antes, juro por Deus, e suas repreensões zombam do próprio amor.

Que o mercador vil negocie defeitos; com suas manobras e demoras, ele sempre consegue mais lucro.

O amor une os mundos. Nada fica além dele, nada mais há a desejar.

Que aqueles que se unem pelo ódio continuem duvidando.

O amor é uma centelha flamejante do próprio fogo da Vida, uma magia que nos mantém unidos num círculo aberto.

Portanto, entregue-se a ele: eis a única coisa que importa no amor, não a prudência calculada.

Pois o amor se acende depressa e depressa abençoa.

Beatrice: Devo ser modesta? Fingir recato? Não, preciso ousar, por mais alto que se ergam as chamas violentas.

E, no entanto, meu peito se aperta sob uma tensão assustadora, como se a alegria estivesse misturada a uma dor abrasadora; como se, entre nossa união, flutuasse um silvo, introduzido por demônios que se regozijam.

Lucindo: É o fogo que a senhora ainda não conhece.

E a velha vida, que agora está prestes a nos abandonar, pronuncia suas últimas palavras.

Depois, suas censuras já não serão ouvidas.

Mas diga-me, Beatrice: como poderei torná-la minha?

Beatrice: Meu pai quer me unir a um homem que eu odiaria, se fosse capaz de odiar meus semelhantes.

Mas tenha certeza: em breve receberá notícias minhas.

Onde está hospedado, doce amigo de meu coração?

Lucindo: Ora, na casa de Pertini.

Beatrice: Enviarei um mensageiro.

Mas agora, seu nome? Certamente deve soar como a música das esferas celestes.

Lucindo (em tom sério): Meu nome é Lucindo.

Beatrice: Lucindo! Doce, tão doce soa esse nome para mim!

Ah, meu Lucindo, ele é meu mundo, meu Deus, meu coração, meu tudo!

Lucindo: Beatrice, a senhora é tudo isso e ainda mais, pois é Beatrice!

(Ele a aperta ardentemente contra o peito. A porta se abre bruscamente, e Wierin entra.)

Wierin: Que bela cena! Ó Beatrice! Ó serpente!

Marionete da virtude, é isso que você é? Fria como mármore!

Lucindo: O que quer dizer com isso? O que procura?

Por Deus, nem um macaco poderia parecer tão elegante!

Wierin: Maldito rapaz, logo aprenderá o que quero dizer.

Nós dois conversaremos, você e eu, rival meu, criatura moldada em forma humana para tornar a humanidade repugnante.

Ser desprezível, inflado de insolente presunção, um pedaço de papel mata-borrão para limpar penas, um herói cômico de alguma farsa miserável!

Lucindo: E, como já foi dito, eis o macaco completo!

Que vergonha, trocar insultos comigo dessa maneira!

Sua coragem é como a música de um realejo tocada diante de um quadro pintado de uma batalha.

Em breve, será a realidade que contará.

Wierin: Em breve? Agora, rapaz! Agora resolveremos essa questão!

P-p-por Deus, meu próprio sangue está gelando!

Beatrice, acabarei com esse amante!

Lucindo: Silêncio, sujeito! Eu o acompanharei neste instante.

(Entra Pertini.)

Pertini: Que barulho é esse? Pensam que estão na rua?

(A Wierin.)

Por que grita, seu corvo? Vou calar essa boca!

(À parte.)

Cheguei no momento exato. O sujeito interpretou um pouco mal minhas intenções.

(Beatrice desmaia.)

Lucindo: Socorro! Ela desmaiou! Ó Deus!

(Inclina-se sobre ela.)

Volte a si, anjo, doce espírito, fale!

(Beija-a.)

Sinto seu calor! Suas pálpebras tremem, ela respira!

Beatrice, por que está assim? Ah, diga-me, por quê?

Quer me matar? Como posso vê-la assim?

(Ele a ergue, abraçando-a. Wierin tenta avançar contra ele, mas Pertini o detém.)

Pertini: Venha, meu amigo Corvo, tenho algumas palavras para lhe dizer ao ouvido.

Beatrice (em voz fraca): Lucindo, meu Lucindo, ah, meu perdido amado... perdido para mim antes mesmo que eu pudesse conquistá-lo!

Lucindo: Acalme-se, meu anjo, nada estará perdido.

Em breve verei esse sujeito dar seu último suspiro.

(Ele a leva até o sofá.)

Deite-se um pouco. Não podemos permanecer aqui por muito tempo; este lugar sagrado não deve ser maculado pelo mal.

Wierin: Venha, vamos conversar.

Pertini: Eu também irei.

É novidade para mim servir de padrinho num duelo.

Lucindo: Acalme-se, doce menina, tenha bom ânimo.

Beatrice: Adeus.

Lucindo: Adeus, anjo.

Beatrice (com um profundo suspiro): Estou cheia de medo.

(Cai o pano. Fim do Ato I.)

3-A DONZELA PÁLIDA

A Donzela Pálida” foi escrita em 1837, quando Karl Marx tinha aproximadamente 19 anos. A datação mais precisa disponível é: Antes de 12 de abril de 1837.

O trecho citado fora de contexto é:

"Assim, perdi o Paraíso,
disso tenho plena consciência.
Minha alma, outrora fiel a Deus,
foi escolhida para o Inferno."

Se refere a uma jovem abandonada pelo principe que a deixa e vai á batalha e comete suicídio. Não se refere a Karl Marx.

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A Donzela Pálida
Uma Balada

A jovem está tão pálida,
tão silenciosa, retraída,
sua doce alma angelical
está dilacerada pela miséria.

Ali nenhum raio de luz pode brilhar,
as ondas se abatem sobre tudo;
ali, amor e dor se misturam,
cada um enganando o outro.

Gentil e recatada,
devota ao Céu,
era uma imagem sempre pura
tecida pelas Graças.

Então chegou um nobre cavaleiro,
montado num magnífico corcel;
e em seus olhos tão brilhantes
fluía um mar de amor.

O amor a atingiu em cheio no peito,
mas ele partiu a galope,
sedento pela vitória na batalha;
nada o fez ficar.

Toda a paz de espírito se foi,
os céus desabaram.
O coração, agora trono da tristeza,
está embriagado de saudade.

E quando o dia termina,
ela se ajoelha no chão,
diante do santo Cristo
, orando mais uma vez.

Mas então, sobre essa forma,
Outra se intromete,
Para tomar seu coração de assalto,
Contra seus próprios reproches.

"A mim, teu amor é dado
para sempre.
Mostrar tua alma ao Céu
é mera ilusão."

Ela treme de terror,
gélida e impiedosa,
ela sai correndo horrorizada,
para a escuridão.

Ela torce suas mãos alvas como lírios,
as lágrimas começam a brotar.
"Assim, o fogo arde no peito
e a saudade, no coração. "

"Assim, perdi o Paraíso,
disso tenho plena consciência.
Minha alma, outrora fiel a Deus,
foi escolhida para o Inferno."


Ele era tão alto, ai de mim,
de estatura divina.
Seus olhos tão insondáveis,
tão nobres, tão belos.

"Ele nunca me dirigiu
um olhar sequer;
deixa-me definhar sem esperança
até o fim da alma."


"Outro pode apertar seu braço,
pode compartilhar de seu prazer;
sem saber, ele me causa angústia
além de qualquer medida."

"De bom grado, com toda a minha alma,
eu me separaria com todas as minhas esperanças,
se ele apenas olhasse para mim
e abrisse o seu coração."


"Quão frios devem ser os céus
onde ele não brilha,
uma terra cheia de miséria
e ardendo em dor."

"Mas aqui a torrente impetuosa
pode me libertar, arrefecendo
o fogo ardente do sangue do coração,
o sentimento do peito."

Ela salta com toda a sua força
para dentro da espuma.
Para dentro da noite fria e escura,
ela é levada pela correnteza.

Seu coração, aquela chama ardente,
extinguiu-se para sempre;
seu olhar, aquela terra luminosa,
obscureceu-se.

Seus lábios, tão doces e ternos,
são pálidos e incolores;
sua forma, etérea e esbelta,
se dissipa no nada.

E nenhuma folha seca
cai do galho;
o céu e a terra estão surdos,
não a acordarão agora.

Por montanhas, vales, sobre
as ondas tranquilas que correm,
para despedaçar seu esqueleto
num lugar rochoso.

O cavaleiro, tão alto e orgulhoso,
abraça seu novo amor,
a cítara canta sobre
as alegrias do verdadeiro amor!  

https://www.marxists.org/archive/marx/works/1837-pre/verse/verse24.htm

4- O violinista

O poema “O Violinista” — publicado em inglês como “The Fiddler” — é uma balada dramática escrita por Marx em 1837, quando ele tinha cerca de 19 anos. A obra pertence aos seus experimentos literários juvenis, não aos textos políticos e filosóficos de sua maturidade.
O poema apresenta um violinista de aparência estranha, armado com uma espada, que toca de maneira frenética. Em um diálogo com outra personagem, ele afirma que sua arte vem do inferno e que fez um acordo com Satanás. 
A leitura mais adequada é literária: o violinista é uma personagem sombria e teatral. O poema utiliza imagens do romantismo e do gótico para representar sofrimento, rebeldia, angústia e uma arte que rompe com a ideia de beleza harmoniosa.
O violinista serra as cordas,
seus cabelos castanho-claros ele joga e agita.
Ele carrega um sabre na cintura,
ele veste um hábito plissado e largo.

"Violinista, por que esse som frenético?
Por que você olha tão descontroladamente ao redor?
Por que seu sangue ferve como o mar revolto?
O que impulsiona seu arco com tanta força?"

"Por que toco violino? Ou por que as ondas bravias rugem?
Para que elas se choquem contra a costa rochosa,
para que os olhos fiquem cegos, os peitos se inchem,
para que o grito da alma seja levado até o inferno."

"Violinista, com desprezo dilacera teu coração.
Um Deus radiante te emprestou tua arte,
para deslumbrar com ondas de melodia,
para voar rumo à dança das estrelas no céu."

"Como assim! Eu mergulho, mergulho sem falhar
meu sabre negro como sangue em sua alma.
Que Deus não quer nem deseja,
ele salta para o cérebro das névoas negras do inferno."

"Até o coração estar enfeitiçado, até os sentidos cambalearem:
com Satanás fiz meu pacto.
Ele traça os sinais, marca o ritmo para mim,
eu toco a marcha da morte rápido e livre."


"Preciso interpretar as trevas, preciso interpretar a luz,
até que as cordas do arco quebrem meu coração por completo."

O violinista serra as cordas,
seus cabelos castanho-claros ele joga e agita.
Ele carrega um sabre na cintura,
ele veste um hábito plissado e largo. https://www.marxists.org/archive/marx/works/1837-pre/verse/verse4.htm

5- Invocação de quem está em desespero

A leitura acadêmica predominante os coloca no contexto da produção literária juvenil de Marx, escrita em 1837, quando ele tinha aproximadamente 19 anos, durante seu envolvimento com o romantismo, a poesia e a filosofia alemã. O texto não diz que Marx era Satanista.

Invocação de quem está em desespero

Um deus me arrebatou tudo,
na maldição e no tormento do Destino.
Todos os seus mundos se foram, irremediavelmente perdidos!
Só me resta a vingança!

Sobre mim mesmo, orgulhosamente me vingarei,
sobre aquele ser, aquele Senhor entronizado,
farei da minha força uma colcha de retalhos do que é fraco,
deixarei meu eu melhor sem recompensa!

Construirei meu trono bem alto,
frio e tremendo será seu cume.
Pois seu baluarte será o temor supersticioso,
pois seu Marechal será a mais negra agonia.

Quem olhar para isso com olhos sãos,
recuará, mortalmente pálido e mudo;
agarrado pela mortalidade cega e fria,
que sua felicidade prepare seu túmulo.

E o relâmpago do Todo-Poderoso ricocheteará
daquele gigante de ferro colossal.
Se ele derrubar minhas muralhas e torres,
a Eternidade as erguerá, desafiadoras.


FASE 3

1839–1842: materialismo, Epicuro e os Jovens Hegelianos — Marx tinha 21–24 anos

Entre 1839 e 1841, Marx trabalhou em cadernos sobre Epicuro e escreveu sua tese de doutorado sobre a diferença entre as filosofias da natureza de Demócrito e Epicuro. Em Berlim, aproximou-se dos Jovens Hegelianos, grupo que submetia a religião e a teologia à crítica histórica e filosófica. Marx também manteve relação intelectual com Bruno Bauer, ligado à crítica bíblica radical e a projetos de crítica do cristianismo.

Ele ainda não era marxista nesse período. A expressão “marxismo” designa uma elaboração posterior baseada em textos de Marx e Engels. O jovem Marx era um hegeliano radical em transição; sua crítica da religião já estava avançada, mas sua teoria da história, da classe e do capitalismo ainda não havia adquirido a forma madura.

A bibliografia de Boer lista os cadernos sobre Epicuro, a tese e a relação com Bauer como etapas da formação intelectual que deslocou Marx da linguagem religiosa juvenil para uma crítica filosófica da teologia . Não é necessário imaginar uma data única de “conversão ao ateísmo”; trata-se de um processo de radicalização intelectual entre o fim da década de 1830 e o início da década de 1840.

1843–1844: formulação explícita da crítica da religião — Marx tinha 25–26 anos

Em dezembro de 1843 e janeiro de 1844, Marx escreveu a introdução à Crítica da filosofia do direito de Hegel, publicada em fevereiro de 1844. Ali aparece sua formulação adulta e inequívoca:

“O homem faz a religião; a religião não faz o homem.”

E também:

“A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições sem alma. É o ópio do povo.”

O sentido do texto não é simplesmente que a religião seja uma mentira sem função. Marx também a descreve como expressão do sofrimento real e como protesto contra esse sofrimento. Sua crítica é simultaneamente filosófica, social e política. O alvo não é apenas a crença privada, mas as condições sociais que produzem a necessidade de consolação religiosa.

Ele já era marxista? Ainda não no sentido rigoroso. Em 1843–44, Marx já era um ateu e um crítico social radical, e estava se aproximando do comunismo. Porém, a palavra “marxismo” e o sistema teórico associado a ela são posteriores. Sua posição de 1844 é uma fase de transição entre a crítica filosófica dos Jovens Hegelianos e a concepção materialista da história que ele desenvolveria com Engels nos anos seguintes.
O texto primário está disponível no arquivo de Marx . Um estudo de Cambridge sobre Marx e os marxismos caracteriza o ateísmo de Marx como bem documentado, mas alerta que sua crítica da religião costuma ser simplificada ou deslocada de seu contexto filosófico e político . Roland Boer também apresenta a literatura de Marx e Engels sobre religião como tema complexo, indo além do slogan “ópio do povo” .


"A exigência de abandonar as ilusões acerca de sua condição é a exigência de abandonar uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião desillusiona o homem, para que ele pense, aja e configure sua realidade como um homem desilusionado que chegou à razão; para que ele gire em torno de si mesmo e, assim, em torno de seu verdadeiro sol." — Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843)
"O fundamento da crítica irreligiosa é: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. [...] A religião é a autoconsciência e o autosentimento do homem que ainda não se encontrou a si mesmo ou já se perdeu novamente." — Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843)
"Para a Alemanha — e para o mundo — a crítica da religião termina com a doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem, e portanto com o imperativo categórico de derrubar todas as relações em que o homem seja um ser degradado, escravizado, abandonado e desprezível." — Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843)

 

1845–1883: ateísmo e crítica social da religião — Marx tinha 27–64 anos

Depois de 1844, Marx continuou tratando a religião como fenômeno social, histórico e ideológico. Em A ideologia alemã (escrita com Engels em 1845–46, quando Marx tinha 27–28 anos), o foco se desloca ainda mais para as condições materiais, a divisão social e as formas de consciência. Em sua obra madura, incluindo O capital (1867, quando tinha 49 anos), Marx usa imagens religiosas — sobretudo o “fetichismo da mercadoria” — como categorias de análise social, não como expressão de crença.

É a partir de 1845–1848, aproximadamente dos 27 aos 30 anos, que se pode falar com mais segurança na formação do Marxismo: Marx e Engels desenvolvem a concepção materialista da história, participam da Liga dos Comunistas e publicam o Manifesto do Partido Comunista em fevereiro de 1848. Mesmo assim, “marxista” é um rótulo retrospectivo e não uma identidade que Marx tenha usado desde a juventude.

Não existe evidência de que Marx tenha voltado ao cristianismo ou adotado o satanismo. A exposição da Biblioteca da Universidade de Chicago resume sua posição adulta como adesão ao ateísmo , e o capítulo da Cambridge University Press trata seu ateísmo como fato histórico conhecido, embora ressalve a complexidade de suas formulações .

Por que surgiu a acusação de satanismo?

A acusação costuma reunir quatro elementos: os poemas juvenis de 1836–37; o fragmento Oulanem; referências de Marx a Goethe e ao Fausto; e a oposição radical à Igreja e à religião.


O problema é que esses elementos não formam uma prova de culto satânico. Eles mostram uma combinação de romantismo, ironia, imaginação demoníaca e crítica social.
O historiador da religião Per Faxneld mostrou que, no século XIX, socialistas e radicais às vezes usavam Satanás como símbolo político de emancipação, revolta contra a Igreja e oposição à ordem social. O artigo também enfatiza que a fronteira entre “satanismo simbólico” e escrita religiosa podia ser retoricamente confusa . Isso ajuda a contextualizar a linguagem de Marx, mas não autoriza concluir que ele fosse satanista.
Assim, a formulação mais responsável é: Marx foi um ateu crítico da religião que, em sua juventude literária, empregou imagens demoníacas e satânicas; não há evidência acadêmica sólida de que tenha sido um satanista religioso.


Conclusão:

1- Marx escrevia como cristão na Juventude.
2- Marx teve uma fase de transição onde escrevia poemas diversos, denrtre eles sobre rebelião com Deus, mas nada disso indica que ele era Satanista.
3- Marx se tornou ateu. Logo não existe base satanista para o Marxismo


Livros e estudos recomendados

Fontes primárias

•Marx, Karl. “Reflections of a Young Man on the Choice of a Profession” (1835), em Marx and Engels Collected Works, vol. 1.
•Marx, Karl. “The Union of Believers with Christ According to John 15:1–14” (1835), em Marx and Engels Collected Works, vol. 1, pp. 636–639.
•Marx, Karl. “Letter to His Father”, 10 nov. 1837, em Marx and Engels Collected Works, vol. 1.
•Marx, Karl. “A Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right: Introduction” (1843–44), em Marx and Engels Collected Works, vol. 3, pp. 175–187.
•Marx, Karl; Engels, Friedrich. The German Ideology (1845–46), em Marx and Engels Collected Works, vol. 5.
•Marx, Karl. Capital: A Critique of Political Economy, vol. 1 (1867), especialmente o capítulo sobre o fetichismo da mercadoria.

Estudos secundários

•McLellan, David. Karl Marx: His Life and Thought. London: Macmillan, 1973; várias reedições.
•Hobsbawm, E. J. E. “Marx, Karl Heinrich (1818–1883), revolutionary and thinker”. Oxford Dictionary of National Biography, publicado originalmente em 2004, versão online atualizada.
•McKinnon, Andrew. “Marx and Marxisms”. In: Bullivant, Stephen; Ruse, Michael (eds.). The Cambridge History of Atheism. Cambridge: Cambridge University Press, 2021, pp. 465–481.
•Boer, Roland. “Opium, Idols and Revolution: Marx and Engels on Religion”. Religion Compass, v. 5, n. 11, 2011, pp. 698–707. DOI: 10.1111/j.1749-8171.2011.00317.x.
•Faxneld, Per. “The Devil is Red: Socialist Satanism in the Nineteenth Century”. Numen, v. 60, n. 5–6, 2013, pp. 528–558. DOI: 10.1163/15685276-12341294.
•Prawer, S. S. Karl Marx and World Literature. Oxford: Oxford University Press, 1976; reedições posteriores. Útil para a formação literária e as referências culturais de Marx.

Referências online