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domingo, 11 de janeiro de 2026

Jesus é o logos , não a palavra de Deus. Doutrina da geração eterna de Jesus refutada

Jesus não é palavra de Deus e sim sua fonte- logos

Ao contrario dos pais da igreja posteriores, Inácio de Antioquia cria como os apóstolos que Jesus não foi gerado como Deus.

“Existe apenas um médico, carnal e espiritual, gerado e ingênito (não gerado)Deus feito carne, filho de Maria e Filho de Deus, vida verdadeira na morte, , um tempo passível e agora impassível, Jesus Cristo nosso Senhor." Padres Apostólicos. Inácio aos Efésios 7, São Paulo:Paulus, 2008, p. 84    Por volta de 110 d.C


1-Por que Jesus não é literalmente a Palavra ?


Geralmente se diz que Jesus é chamado de Logos no sentido de Palavra Literal, verbo pois Deus fez tudo pela sua palavra.

Há, como vimos, marcantes diferenças entre João c todo esse conjunto de idéias acima. Antes, porém de analisarmos o prólogo, é necessário verificar as idéias veterotestamentárias que informaram a cristologia do Logos. O conceito de logos no AT (-► AT, abaixo) tem muita relação como Logos joanino, A palavra de Javé é o poder que cria (Gn 1; SI 33:6, 9) e sustenta o mundo (SI 147: 15-18; 148:8). A palavra de Javé traz luz, revelação e julgamento (Os 6:5; SI 119:19, etc.; Am 3:8, etc.), é efetiva para a salvação do povo de Deus (SI 147:15; Is 55:10 e segs,, etc.)* “Deve haver poucas dúvidas quanto ao conceito hebraico da palavra como ato desempenhar um grande papel na compreensão do significado do Logos. Na história e profecia do Antigo Testamento, a debar Yahweh sempre significava a atividade de Javé na criação, revelação e redenção” (R. Morgan, Interpretation, XI, 1957 159 e segs.). ... Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento ,p. 1531


1-Mas Bíblia diz que Jesus sempre esteve com o Pai e era Deus no princípio absoluto e não simplesmente no princípio da criação

(b) Princípio absoluto. Jo 1:1 dá a entender algo antes do tempo, i.é, não um começo dentro do tempo, mas um princípio absoluto, que se pode afirmar somente com respeito a Deus, de Quem não se pode predicar nenhuma categoria temporal. O Logos ( Palavra) é pré-existente, no sentido mais rigoroso, antes do mundo, e, portanto, antes do tempo que começa com o mundo. Este é o sentido também em 1 Jo 1:1; 2:3-4. A referência anterioor com o sujeito no neutro faz a intenção ainda mais clara. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento , p. 369-370

Portanto se Deus não tivesse criado o universo ele continuaria sendo uma trindade

2-Jesus junto com o Pai e o Espírito criaram o Universo por meio da Palavra, portanto Jesus não é a palavra literal, Jesus fez o universo e o sustenta pela sua palavra:

1:1  Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas,

1:2  nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo

1:3  Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas,

Hb 11:3  Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem.
Sl 33:6  Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de sua boca, o exército deles.

Gênesis 1:26  Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.


 Baseado na interpretação literal de Jesus sendo a Palavra de Deus, muitos pais da Igreja passaram a ensinar que Jesus foi gerado pelo Pai na criação, gerado como o pensamento gera a palavra e a fogo a luz e o calor ou eternamente gerado, o que constitui um equívoco.

2- Qual o sentido do termo logos  em Jo 1:1 ? Existe geração eterna?

Existem várias propostas:

Patrística

Palavra criativa na criação, analogia do pensamento/palavra

Logos também é a tradução da LXX para o Heb, dãbàr  (palavra). No NT o emprego técnico do termo é confinado a Jo 1:1 e segs.: 1 Jo 1:1; Ap19:13 (cf. Hb 1:2; 4:12). Os apologistas do século II desenvolveram cristologias de Logos  que apresentavam a crença em Jesus Cristo em termos de logos divino na criação  Glossário, LXX
Deixando de lado a encarnação, de acordo com Justino as funções especiais do Logos são duas: ser o agente do Pai na criação e na ordenação do universo8 e revelar a verdade aos homens.9 No que diz respeito à Sua natureza, enquanto outros seres são “coisas feitas” (poiêmataw) ou “criaturas” (ktismata11), o Logos é a “geração” (gennêma12) de Deus, Seu “filho” (teknon13) e Seu “unigênito” (ho monogeriêsu)\ “No princípio, antes de todas as criaturas, Deus gerou um poder racional a partir de Si mesmo”.15 Nesse caso, para Justino, geração significa não a origem última do Logos ou da razão do Pai (isso ele não discute), mas Sua expressão ou emissão tendo em vista os propósitos da criação e da revelação; e ela é condicionada por uma ação da vontade do Pai, sendo resultado de tal ato.16 Mas essa geração ou emissão não implica nenhuma separação entre o Pai e Seu Filho, como deixa claro a analogia entre a razão humana e sua extrapolação na fala. “Quando pronunciamos uma palavra, fazemos nascer a palavra (ou razão) dentro de nós, mas sem diminuí-la, visto que sua expressão não acarreta rompimento algum. Observamos algo muito parecido quando fogo é aceso a partir de outro. Este fogo não experimenta diminuição, mas continua o mesmo; enquanto o fogo que é aceso parece existir por si próprio, sem diminuir o fogo em que teve origem.”1 Mais adiante,1 2 Justino utiliza a analogia da impossibilidade de fazer distinção entre a luz e o sol, que é sua fonte, para afirmar que “esse Poder é indivisível e inseparável do Pai”, e Sua distinção numérica do Pai não envolve nenhuma divisão na essência deste.
9. 1 apol. 5.4; 64.5; 2 apol 6.3.
10. 2 apol. 6.3; dial 62.4.
11. Dial. 61.1; 100.2.
12. 1 apol 21.1; dial 62.4.
13. Dial. 125.3.
14. Ibidem, 105.1.
15. Ibidem, 61.1.
16. Ibidem, 61.1; 100.4; 127.4; 128.4. p. 72-72


 Taciano foi discípulo de Justino e, tal como seu mestre, falou3 que o Logos existia no Pai na forma de Sua racionalidade, tendo sido então gerado por um ato de Sua vontade. Também à semelhança de Justino, ele enfatizou4 a unidade essencial da Palavra com o Pai, empregando a mesma imagem de uma luz acesa a partir de outra. “O nascimento do Logos envolve uma distribuição (merismon), mas nenhuma ruptura (apokopen). O que se rompe é desligado de sua origem, mas aquilo que é distribuído passa por uma divisão na organização, sem empobrecer a fonte da qual deriva. Pois, assim como uma única tocha serve para acender várias fogueiras, e a luz da primeira tocha não enfraquece pelo fato de outras serem acesas a partir dela, o Verbo também procede do poder do Pai, sem privar de Seu próprio Verbo aquele que O gerou. Por exemplo, eu falo e tu me ouves; mas eu, que converso contigo, não fico desprovido de minha palavra ao transmiti-la a ti.” Ao mesmo tempo, Taciano acentuou5 mais do que Justino o contraste entre os dois estados sucessivos do Logos. Antes da criação, Deus estava só; o Logos estava imanente nEle como Sua potencialidade para criar todas as coisas. No momento da criação, porém, Ele irrompeu do Pai como Sua “obra primordial” (ergon prõtotokon). Uma vez nascido, sendo “espírito derivado de espírito, racionalidade derivada do poder racional”, Ele serviu como o instrumento do Pai na criação e no  governo do universo, principalmente ao fazer os homens à imagem divina.6

O ensino de Teófilo de Antioquia seguia uma linha de raciocínio parecida, embora utilizasse abertamente os termos técnicos estóicos apropriados a seu sistema de idéias. “Deus”, escreveu,7 “tendo Sua Palavra imanente (endiatheton) em Suas entranhas, gerou-a juntamente com Sua sabedoria, emitindo-a antes do universo. Ele usou esse Verbo como Seu assistente em Sua obra criadora e por intermédio dEle fez iodas as coisas. Esse Verbo é chamado Princípio Primeiro, porque é o princípio e o Senhor de todas as coisas moldadas por Ele”. Além disso, tratando da filiação do Logos, Teófilo escreveu:8 “Ele não é Seu Filho na acepção em que os poetas e romancistas descrevem o nascimento dos filhos dos deuses, mas, sim, no sentido de que a verdade fala do Verbo considerando-o eternamente imanente (endiatheton) no seio do Pai. Pois antes que qualquer coisa viesse a existir, Ele O teve como Seu 

3. Or. 5.1.
4. Ibidem, 5.1s.
5. Ibidem, 5.1.
6. Ibidem, 7.1s.
7. AdAutoL 2.10.
8. Ibidem, 2.22.
conselheiro, Sua própria inteligência e pensamento, mas quando Deus quis criar aquilo que planejara, Ele gerou e produziu (egenhêse prophorikori) esse Verbo, o primogênito de toda a criação. Dessa maneira, Ele não ficou despojado de Seu Verbo, mas, tendo-O gerado, fica sempre em Sua companhia”. Assim como Justino, Teófilo entendia que1 as teofanias do Antigo Testamento teriam sido de fato aparições do Logos. Em Si, Deus não pode estar limitado ao tempo e espaço, mas a função do Verbo que Ele gerou era justamente manifestar Sua mente e vontade na ordem criada. p. 74

Um relato bem mais completo é apresentado por Atenágoras. Numa passagem famosa,1 2 depois de afirmar que o Deus não criado, eterno e invisível deu origem e embelezou, e na realidade governa o universo mediante Seu Verbo, ele passa a identificar o Verbo com o Filho de Deus. Repudiando a objeção de que é ridícula a idéia de Deus ter um filho, ele protesta, dizendo que o Filho de Deus não é como os filhos dos homens, mas, sim, “o Verbo de Deus em idéia e em operação (en idea kai energeia). Foi por Ele e por Seu intermédio que tudo se fez, e o Pai e o Filho formam uma unidade. “Estando o Filho no Pai e o Pai no Filho pela unidade e pelo poder do espírito divino, o Filho de Deus é a inteligência e a Palavra do Pai” (nous kai logos). Para deixar mais claro seu argumento, Atenágoras destaca então que, embora seja geração de Deus, Ele na verdade nunca passou a existir (ouch hõs genomenon), “pois desde o início Deus, sendo inteligência eterna, tinha Sua Palavra (logon) em Si mesmo, sendo eternamente racional” (aidiõs logikos). Uma descrição mais correta seria a de que Ele “Se manifestou” (proelthõn\ novamente a idéia de logos prophorikos) no mundo da matéria informe como a idéia arquetípica e força criadora. Em apoio a isso, ele cita Provérbios 8.22, “o Senhor me criou como um princípio de Seus caminhos para Suas obras”, sem, porém, enfatizar o verbo “criar”. Num capítulo posterior3, ele fala do “Deus verdadeiro e do Logos que deriva dEle”, passando a tratar da unidade e da comunhão que existe entre o Pai e o Filho; mais adiante,4 descreve o Filho como “inteligência, Palavra, sabedoria” do Pai.
No ensino dos apologistas, há dois pontos que, devido à sua importância abrangente, devem ser bem destacados, a saber: (a) para todos eles, a descrição “Deus Pai” não indicava a primeira Pessoa da Santa Trindade, mas a Divindade única, considerada autora de tudo o que existe; e (b) todos eles, incluindo Atenágoras, identificavam a geração do Logos e, conseqüentemente, Sua qualificação ao título de “Filho” não com o momento em que teria sido originado dentro do ser da Divindade, mas com o instante de sua emissão ou expressão com vistas aos propósitos da criação, revelação e redenção. p. 74


 Teófilo realmente tinha a idéia da santa Tríade firmemente estabelecida em seu pensamento. Ele imaginava que Deus tinha Seu Verbo e Sua Sabedoria eternamente em Si, e gerou-Os5 tendo por propósito a criação; ele também foi claro6 ao dizer que, quando Deus Os expressou, Ele não Se esvaziou dEles, mas “está para sempre conversando com Seu Verbo”. Assim, a imagem elaborada pelos apologistas, ou seja, a de um homem expressando seu pensamento e seu Espírito em atividade externa, permitiu-lhes reconhecer, ainda que vagamente, a pluralidade na Divindade e ainda mostrar como 0 Verbo e o Espírito, embora realmente manifestos no mundo do tempo e do espaço, também podiam continuar dentro do ser do Pai, sem romper Sua unidade com Ele.p. 77

 

A razão desse enfoque, comum a todos os pensadores cristãos desse período, era o profundo interesse deles no princípio fundamental do monoteísmo, mas seu corolário inevitável era certo obscurecimento da posição do Filho e do Espírito como “pessoas” (para usar o jargão da teologia posterior) antes de serem gerados ou emitidos. Devido à sua ênfase na "economia”, esse tipo de pensamento tem sido rotulado de trinitarismo econômico. A descrição é apropriada e conveniente, desde que não se entenda que, por seu reconhecimento da Trindade revelada na “economia” e por seu interesse nisso, Irineu ria-se impedido de reconhecer também a misteriosa triunidade da vida interior de Deus. O objetivo básico da grande imagem ilustrativa que ele, como seus predecessores, empregou, a saber, a figura de um homem com suas funções intelectuais e espirituais, era destacar, mesmo que de modo inadequado, o fato de que existem distinções reais no ser imanente do Pai único, indivisível, e que, embora essas distinções tenham-se manifestado plenamente só na “economia”, na verdade elas existiam desde toda a eternidade. p. 80

 

Em primeiro lugar, portanto, ambos defendiam o conceito de que Deus existe, desde toda a eternidade, em solitude singular; ao mesmo tempo, com base na analogia das funções mentais do homem, Ele tem Sua razão ou Palavra imanente em Si mesmo, indivisível. Essa é a doutrina do Logos endiathetos, conhecida desde os apologistas, e Hipólito chega a usar1 2 o termo técnico. Para ele, como também para Taciano e Irineu, a Palavra de Deus e Sua Sabedoria são distintas, sendo na verdade o Filho e o Espírito considerados imanentes; mas Tertuliano acompanha3 a tradição que identifica a Sabedoria com a Palavra. Dessa maneira, Hipólito afirma que sempre existe uma pluralidade na Divindade, afirmando;4 “Embora só, Ele era múltiplo (monos õn polys ên), pois não estava sem Sua Palavra e sem Sua Sabedoria, Seu Poder e Seu Conselho”. Tertuliano é bem mais explícito, destacando5 que “antes de todas as coisas Deus estava só, sendo Seu próprio universo, localização, tudo. Entretanto, Ele estava só, no sentido de que não havia nada externo a Ele. Mesmo assim, porém, Ele não estava realmente só, pois tinha junto de Si aquela Razão que possuía em Seu próprio íntimo, isto é, Sua própria Razão”. Além disso, ele expõe muito mais claramente do que qualquer de seus predecessores a diversidade ou individualidade dessa razão ou Palavra imanente. A racionalidade, explica1 ele, por meio da qual uma pessoa cogita e planeja, é de alguma forma “outro” (alius) ou “um segundo” em si mesmo (cf. secunãus quodammodo in te est sermo)\ e assim também com a Palavra divina, com a qual Deus vem raciocinando desde a eternidade e que constitui “um segundo em relação a Si mesmo” (secundum a se). p. 82-83

 Em segundo lugar, porém, a triplicidade do ser intrínseco de Deus manifesta-se na criação e na redenção. De acordo com Hipólito,1 2 quando Deus quis, Ele gerou Sua Palavra, usando-a para criar o universo, e Sua Sabedoria, para adorná-lo ou ordená-lo. Mais tarde ainda, tendo em vista a salvação do mundo, Ele fez com que a Palavra, até então invisível, se tornasse visível na encarnação


Tertuliano acompanhou os apologistas, indicando que7 Sua “geração perfeita” teria ocorrido quando Ele foi extrapolado para a obra da criação; antes desse momento, não se poderia dizer exatamente que Deus tinha um Filho,8 enquanto, depois disso, o termo “Pai”, que para os teólogos

1. Ibidem.
2. C. Noet. lOs.
3. C. Noet. 7; 11; 14.
4. Ibidem, 10: cf. ibidem, 8.
5. Ibidem, 10.
6. Ibidem, 15.
7. Adv. Prax. 7.
8. Adv. Hermog. 3.
Vimos acima que essa interpretação não se sustenta pois o próprio Jesus fez uso da palavra para criar o universo


O trinitarismo de Orígenes foi uma brilhante reinterpretação, em termos do mesmo medioplatonismo, da tradicional regra triádica de fé, com a qual ele estava comprometido como ministro. No topo de seu sistema, na condição de fonte e alvo de toda existência, transcendendo a mente e o próprio ser, ele colocou Deus Pai, “totalmente Mônada e, também, se é que posso expressá-lo desse modo, Hênada”.3 Só Ele é Deus no sentido estrito (autotheos), só Ele é “ingerado(agennêtos), e é significativo que Cristo tivesse falado dEle como “o único Deus verdadeiro” (Jo 17.3).4 Sendo bondade e poder perfeitos, Ele sempre deve ter tido objetos sobre os quais exercia esses atributos, de maneira que trouxe à existência um mundo de seres espirituais, ou almas, coeternas consigo mesmo.5 Contudo, para fazer mediação entre Sua unidade absoluta e a multiplicidade de tais seres, Ele tem Seu Filho, Sua imagem expressa, o ponto de encontro de uma pluralidade de “aspectos” (epinoiai: que representam as idéias do platonismo propriamente dito) que explicam sua dupla relação com o Pai e com o mundo.6 Esses “aspectos” representam os múltiplos caracteres que a Palavra apresenta em Seu ser eterno (e. g., Sabedoria, Verdade, Vida) ou então em sua forma encarnada (por exemplo, Aquele que Cura, Porta, Ressurreição). Estando fora do tempo e sendo imutável, o Pai gera o Filho mediante um ato eterno (aei genna auton), de maneira que não se pode dizer que “houve um tempo quando Ele não existia”;7 além disso, 0 Filho é Deus, embora Sua deidade seja derivada e, assim, Ele é um “Deus secundário” (deuteros theos8). É notável o paralelo com Albino,9 que acreditava num Pai supremo que organizou a matéria por meio de um segundo Deus (a quem ele, no entanto, identificou com a Alma Mundial), como é notável o fato de ambos os pensadores terem concebido10 11 a geração do Filho como resultado de Sua contemplação do Pai. Mas, em terceiro lugar (e aqui ele percebe11
1. Strom. 6.138.1s; 7.9.4; 7.79.4.
2. Paed, 1.42.1: cf. ibidem, 3.101.2; prot. 118.4; quis div. 34.1; etc.
3. De princ. 1.1.6; c. Cels. 7.38.
4. In Ioh. 2.2.16; 2.10.75.
5. De princ. 1.2.10; 1.4.3; 2.9.1.
6. C. Cels. 2.64; in Ioh. 1.20.119.
7. De princ. 1.2.4; hom. in lerem. 9.4: cf. Plotino, enn. 5.1.6.
8. C. Cels. 5.39; in Ioh. 6.39.202.
9. Veja acima, p. 15.
10. Cf. Orígenes, in Ioh. 2.2.18; Albino, didask. 14.3.
11. De princ. 1.3.1-4.  p. 95

...O Pai, o Filho e o Espírito Santo são “três Pessoas” (hypostaseis), declara Orígenes.1 2 Essa afirmação de que cada um dos Três é uma hipóstase distinta desde toda a eternidade, não se tendo manifestado apenas na “economia” (como acreditavam Tertuliano e Hipólito), é uma das principais características de sua doutrina, brotando diretamente da idéia de geração eterna. p. 96


 Num campo mais limitado, o impacto do platonismo revela-se no subordinacionismo radical que é parte integrante da estrutura trinitária de Orígenes. Como vimos, só 0 Pai é autotheos\ de maneira que João, diz ele,1 descreve corretamente o Filho, chamando-o somente de theos, e não de ho theos. Em relação ao Deus do universo, Ele merece um nível secundário de honra,1 2 pois não é bondade e verdade absolutas: Sua bondade e verdade são reflexo e imagem do Pai.3 O mesmo se aplica à Sua atividade; o Filho é o agente do Pai (hypêretés) e executa Suas ordens, como no caso da criação.4 Por isso, ele conclui5 que “não devemos orar a qualquer ser gerado, nem mesmo a Cristo, mas somente ao Deus e Pai do universo, a quem nosso próprio Salvador orava”; se a oração é oferecida a Cristo, ela é transmitida por Ele ao Pai. Na verdade, o Filho e o Espírito são transcendidos pelo Pai ao menos na mesma intensidade com que Eles próprios transcendem a esfera de seres inferiores;6 e, se às vezes a linguagem de Orígenes parece contradizer isso, indicando7 que o Filho é Deus desde o princípio, a própria Palavra, a Sabedoria e a verdade absolutas, a explicação é que Ele assim pode parecer às criaturas, mas, do ponto de vista da Divindade inefável, é o primeiro na seqüência de emanações. Esse conceito de uma hierarquia descendente, resultado em si da formação platonizante de Orígenes, é resumido na afirmação8 de que, enquanto a ação do Pai estende-se a toda a realidade, a do filho limita-se aos seres racionais, e a do Espírito, àqueles que estão sendo santificados. p.98


Foi Gregório de Nissa, porém, quem apresentou o que seria a afirmação definitiva. O Espírito, ele ensina,1 sai de Deus e é de Cristo; Ele procede do Pai e recebe do Filho; não se pode separá-Ιo da Palavra. A partir daí, é curto o caminho até a idéia da dupla processão do Espírito. De acordo com Gregório de Nissa, 2 as três pessoas devem ser distinguidas por Sua origem: o Pai é a causa {to aition) e os outros dois “causados” (c/. to aitiaton.). As duas pessoas causadas têm ainda outra distinção, pois uma dElas é diretamente (prosechõs) produzida pelo Pai, enquanto a outra procede do Pai por meio de um intermediário. Visto por esse prisma, apenas o Filho tem direito ao título de Unigênito, e a relação do Espírito com o Pai não fica de modo algum prejudicada, porque Ele deriva Seu ser do Pai mediante o Filho. Em outra passagem, Gregório fala3 que o Filho se relaciona com o Espírito em termos de causa e efeito; para ilustrar a relação das três pessoas, ele emprega4 a analogia de uma tocha que primeiro dá sua luz a outra tocha e, então, por intermédio desta a uma terceira.

E visível que faz parte da doutrina de Gregório o fato de que o Filho, sem dúvida em subordinação ao Pai, que é o manancial da Trindade, atua como 0 agente na produção do Espírito. Acompanhando Gregório, costuma-se ensinar na Igreja Oriental que a processão do Espírito Santo é “da parte do Pai por intermédio do Filho”. Epifânio, após descrever o Espírito Santo, dizendo que Ele “procede do Pai e recebe do Filho”, dá mais um passo, influenciado talvez por seus contatos com 0 Ocidente, e omite a preposição crucial “mediante”. Para ele,5 o Espírito Santo “não é gerado, não é criado, não é coirmão nem irmão do Pai, nem genitor nem geração, mas da mesma substância do Pai e do Filho”. Ele é 0 “Espírito do Pai” e o “Espírito do Filho” não por intermédio de alguma composição análoga à do corpo e da alma num homem, mas “no centro do Pai e do Filho, saindo do Pai e do Filho”. Ele “procede de ambos, um Espírito derivado de espírito, pois Deus é espírito”.6 Recordamos que mais de cem anos antes, Orígenes havia ensinado7, com base em João 1.3, que 0 Espírito deve ser incluído entre as coisas que vieram a existir pela Palavra. A mesma teoria, com um forte cunho subordinacionista, reaparece em seus sucessores radicais, como Eusébio de Cesaréia.8 No entanto, de acordo com a formulação dos capadócios, a idéia da dupla processão do Pai por intermédio do Filho não tem nenhum vestígio de subordinacionismo, pois seu contexto é um reconhecimento sincero do homoousion do Espírito. 

 1. C. Maced. 2; 10; 12; 24. 

2. Quod non sint ad fin.3. C. Eunom. 1.42 (PG 45, 464).
4. C. Marced. 6.
5. Ancor. 7.7s.
6. Ibidem, 70.
7. E. g.,in Ioh. 2.10.75s.
8. Veja acima, p. 192.  
Idem p. 198

 Geração eterna não subordianiconista  

Atanásio sustenta2 que Deus nunca pode estar sem Sua Palavra, da mesma forma como a luz nunca pode deixar de brilhar nem o manancial do rio deixar de fluir. Por isso, o Filho deve ter existido na eternidade junto com o Pai. A explicação disso é que Sua geração é um processo eterno; “assim como o Pai é sempre bom por natureza, Ele também é por natureza sempre generativo (aei gennêtikos3). “É plenamente correto”, escreve ele,4 “chamá-Ιo de geração eterna do Pai, pois o Ser paterno jamais esteve incompleto, nunca precisou que se Lhe acrescentasse algum aspecto essencial; nem a geração do Filho é como a de um homem em relação a seu pai, o que exigiría que Ele tivesse vindo à existência depois do Pai. Pelo contrário, Ele é geração de Deus, e, uma vez que Deus é eterno e Ele Lhe pertence como Filho, existe desde a eternidade. E característico dos homens, devido à imperfeição de sua natureza, gerar no tempo; mas a geração de Deus é eterna, sendo Sua natureza sempre perfeita”. Tal como Irineu, Atanásio considera5 misteriosa a geração do Filho, mas, em sua interpretação6, deixa implícito que, longe de ser uma criatura, Ele deve, à semelhança da geração humana, derivar da natureza de Seu Pai e dela participar. Isso não significa que devemos forçar a analogia da geração humana a ponto de concluir que o Filho é como uma porção de substância divina separada do Pai; isso é impossível — a natureza divina é imaterial e não está dividida em partes.7 Nem significa que a geração do Filho seja, como afirmavam os arianos, resultado de um ato definido da vontade do Pai, o que reduziría a condição do Filho à de mera criatura. Certamente, isso ocorre de acordo com a vontade do Pai, mas é ilusório falar de um ato específico de volição com respeito a um processo eterno inerente na própria natureza de Deus.8 Também devemos rejeitar a indicação de que, ao contrário do Pai, o Filho não é agennetos, caso a conotação dada a esse termo ambíguo seja de “eternamente existente” ou “incriado”, embora, é claro, ele não seja agennetos, se a palavra retém seu sentido etimológico de “ingerado”.9. Atanásio está certo de que, na condição de geração (gennêma) do Pai, o Filho tem de ser realmente distinto (heteron) dEle;10 e, uma vez que a geração é eterna,


1.De syn. 51.
2.E. g.,c.Ar. 2.32.
3.Ibidem, 3.66.
4.Ibidem, 1.14.
5.C. Ar. 2.36; 3.66s.
6.Ibidem, 1.26-28; 2.59s.
7.De decret. 11.
8.C.Ar. 3.59-66.
9.Ibidem, 1.31; de decret. 28-30.
10.C.Ar. 3.4.
p. 184
segue-se que a distinção também é eterna, não pertencendo simplesmente à “economia”. No entanto, conclui-se também que, na condição de Filho derivado do ser de Seu Pai, Ele deve partilhar da mesma natureza. Na expressão de Atanásio.1 "o Filho é diferente das criaturas em espécie e natureza (heterogen.es kai heterophyês): ou melhor, ele pertence à substância do Pai (tês tou patros ousias idios) e é da mesma natureza”. Considerados como duas pessoas, portanto, o Pai e o Filho são “iguais” (homoioi). O Filho é a imagem do Pai;1 2 Ele é o rio e o Pai é 0 manancial; Ele é 0 brilho e o Pai, a luz.3 Por isso, todo aquele que vê Cristo, vê o Pai, “porque o Filho pertence à substância do Pai e porque Ele é totalmente semelhante (kata panta homoiotéta) ao Pai”.4 Essa semelhança, contudo, não é externa, como a que existe entre um homem e outro,5 mas se estende à Sua própria substância ou natureza. “Ele é a geração”, diz 6 Atanásio, “da substância de Seu Pai, de modo que ninguém pode duvidar de que, devido à Sua semelhança com Seu Pai imutável, a Palavra também seja imutável”. p. 185 

 

Tanto Atanásio quanto Hilário, deve-se notar, ao fazerem concessões aos homoiousianos. aceitavam1 com naturalidade que o Filho é uma geração real e deriva Sua substância da substância do Pai....p. 192

 

Basílio comenta:1 “No Filho é visto tudo aquilo que o Pai é, e tudo o que 0 Filho é pertence ao Pai. O Filho como um todo habita no Pai e, por sua vez, possui em Si o Pai como um todo. Assim, a hipóstase do Filho é como a forma e a apresentação pelas quais o Pai é conhecido, e a hipóstase do Pai é reconhecida na forma do Filho”. Temos aqui a doutrina da co-inerência das pessoas divinas, ou “pericorese“, como foi mais tarde chamada. Pode-se afirmar que a Divindade existe “não-dividida... em pessoas divididas” (ameristos en memerismenois... he theotês1 2), e há uma “identidade de natureza” (tautotês physeõs) nas três hipóstases.3 “Confessamos”, escreve4 Evágrio Pôntico, “a identidade de natureza e, assim, aceitamos o homoousion.... Pois Aquele que é Deus, com relação à substância, é consubstanciai com Aquele que é Deus com relação à substância”. Gregário de Nazianzo explica5 a posição, declarando: “Os três possuem uma só natureza, a saber, Deus, sendo que a base da unidade é o Pai, de quem e para quem enumeram-se as pessoas subseqüentes”. Embora se exclua todo subordinacionismo, aos olhos dos capadócios o Pai continua sendo a fonte, o manancial ou o princípio da Divindade. p. 199
Por isso Agostinho ensinou, mais inequivocamente do que qualquer dos pais ocidentais que o precederam,5 a doutrina da dupla processâo do Espírito a partir do Pai e do Filho (filioque). Respondendo à objeção de que, uma vez que o Filho e o Espírito derivam do Pai, deve haver dois Filhos, ele declarou:6 “O Filho vem do Pai, o Espírito também vem do Pai. Mas o primeiro é gerado, o último procede. De sorte que o primeiro é Filho do Pai, de quem é gerado, mas o último é o Espírito de ambos, visto que procede de ambos... O Pai é o autor da processâo do Espírito porque Ele gerou tal Filho e, ao gerá-Ιo, também tornou-O a fonte da qual 0 Espírito procede”. A questão é que, se o Pai deu tudo o que possui ao Filho, dar-Lhe a capacidade de outorgar o Espírito.7 Agostinho nos adverte8 que não se deve inferir que o Espírito tem, portanto, duas fontes ou princípios; pelo contrário, a ação do Pai e do Filho ao outorgarem o Espírito é comum, assim como a ação das três pessoas na criação. Além disso, apesar da dupla processâo, o Pai continua sendo a fonte primordial (e/. de patre principaliter... communiter de utroque procedit), na medida em que é dEle que 0 Filho deriva Seu poder de outorgar o Espírito.9  p. 208

Resposta:

1-Nenhum texto bíblico diz que o Pai é a fonte da Trindade ou da divindade

2- Nenhum texto bíblico diz que Jesus foi gerado como Deus

3- Nenhum texto bíblico diz que Deus é por natureza generativo

4- Não existe geração eterna, pois tudo que é gerado não pode ser eterno
Disso resulta que é eterno, pois tudo o que existe com base na necessidade pura e simples é eterno. E aquilo que é eterno é não gerado e imperecível. (ARISTÓTELES- Etica a Eudemo. São Paulo: Edipro, 2015, p. 181)


5- A enumeração de pessoas da trindade a partir do Pai é um erro. Não existe enumeração ordinal na Trindade.

6- O Salmo 2 de se refere a ressurreição de Cristo e entronização de Cristo como rei após sua morte, citado em  Hb 1:5: "Pois a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho?
 
Sl 2:1-12: "  Por que as nações se enfurecem, e os povos tramam em vão? 
Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram unidos contra o SENHOR e seu ungido", dizendo: Rompamos suas correntes e livremo-nos de suas algemas. Aquele que está sentado nos céus se ri; o Senhor zomba deles.
 Então ele *os repreende na sua ira e os aterroriza no seu furor, dizendo: Eu mesmo constituí o meu rei em Sião, meu santo monte. 
Proclamarei o decreto do SENHOR; ele me disse: Tu és meu filho, hoje te gerei. Pede-me, e te darei as nações como herança, e as extremidades da terra como propriedade. 
Tu as quebrarás com uma vara de ferro e as despedaçarás como se fossem um vaso de barro. A gora, ó reis, sede prudentes; juízes da terra, acolhei a advertência. Cultuai o SENHOR com temor e regozijai-vos com tremor. Beijai o filho, para que ele não se irrite, e não sejais destruídos no caminho; porque em breve sua ira se acenderá. Bem-aventurados todos os que confiam nele."

 O texto se refere a morte e ressurreição de Cristo seguido do juizo sobre os povos segundo o ensino do NT:

At 4:25-28: "que, pelo Espírito Santo, disseste pela boca de nosso pai Davi, teu servo: Por que os gentios se enfureceram, e os povos imaginaram coisas vãs? Os reis da terra levantaram-se, e as autoridades aliaram-se contra o Senhor e contra o seu Ungido. Pois, nesta cidade, eles de fato se aliaram contra o teu santo Servo Jesus, a quem ungiste; não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os povos de Israel; para fazer tudo o que a tua mão e a tua vontade predeterminaram que se fizesse."

 At 13:33: "a qual Deus cumpriu para nós, filhos deles, ressuscitando Jesus, como também está escrito no segundo salmo: Tu és meu Filho, hoje te gerei."

 Ap 2:27: "assim como eu recebi autoridade de meu Pai, e com cetro de ferro as regerá, quebrando-as como são quebrados os vasos do oleiro."

 At 13:33-35: "a qual Deus cumpriu para nós, filhos deles, ressuscitando Jesus, como também está escrito no segundo salmo: Tu és meu Filho, hoje te gerei. E quanto a tê-lo ressuscitado dentre os mortos para nunca mais voltar à deterioração, Deus falou: Eu vos darei as santas e fiéis bênçãos de Davi. Porque ainda em outro salmo diz: Não permitirás que o teu Santo sofra deterioração."

 Rm 1:4: "e com poder foi declarado Filho de Deus segundo o Espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor."


7- O termo unigênito no grego, não se refere a unico gerado, mas a singularidade, unico do tipo. O Lexico de Strong recomenda o uso do DITNT, que diz:

 4. monogenès, o "Unigênito", ou "Único", é achado como título cristológico so-mente em João. Mateus e Marcos empregam agapetos, "amado" (Mt 3:17 par. Mc 1: 11; Mt 17:5 par. Mc 9:7). Paulo tem ho heautou hyios (Rm 8:3), ho idios hyios (Rm 8:32), "Seu próprio Filho", ou ho prototokos, "o Primogênito" (Rm 8:29). monogenes emprega para destacar Jesus de modo sem igual, acima de todos os seres terrestres e celestiais; no emprego desta palavra, o significado presente, soteriológico se ressalta de modo mais forte do que o da sua origem (Jo 1:14, 18; 3:16, 18; 1 Jo 4:9).
RSV e NEB E. Brown, O Evangelho Segundo John, Anchor Bible, I, 1966, 13-14, e D. Moody.  "God's Only Son: The Translation of John 3:16 in the Revised Standard Version JBL 72, 1953, 213-19. Lit., significa "de um tipo único", e podia até ser aplicado neste sentido à fênix (1 Clem. 25:2). Tem conexão apenas distante com gennao, "gerar".

A idéia de "unigênito" remonta até Jerônimo, que empregou unigenitus na Vulg.  para ir contra a alegação dos arianos, de que Jesus não foi gerado, mas, sim, feito.  monogenès reflete o Heb.  yahid, aplicado a Isaque (Gn 22:2, 12, 16), de quem é empregado em Hb 11:16. 

 O significado de monogenès "se centraliza na existência Pessoal do Filho, e não na Geração do Filho" (B. F. Westcott, The Epistles of St. John, [1883] 1966, 170). 

 Jesus como monogenès é Aquele que pode dizer "Eu e o Pai somos um [hen esmen]" (Jo 10:30).  Jesus, incluído na unicidade de Deus, não desaparece na história e naquilo que é histórico, mas, sim, Se destaca acima deles como Senhor.  K.-H.  Bartels
 Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento p. 2565-2566

. (c) O caráter pessoal de Deus acha expressão especial na confissão de Deus como →Pai. O relacionamento de Jesus com Deus é essencialmente determinado pelo Seu relacionamento de Filho para Pai. Como Filho "unigênito", é vinculado a Deus de modo especial, conforme visa demonstrar o emprego que João fez de monogenès (cf. Jo 1:14, 18; 3:16, 18; 1 Jo 4:9). ([Ed.] Lit. O Gr. significa "de um único [monos] tipo [genos]." Embora genos tenha uma afinidade distante com gennaō, "gerar" → Nascimento, há pouca justificativa lingüística para traduzir monogenès como "unigênito". Esta última praxe teve sua origem em Jeronimo, que o traduziu pelo Lat. unigenitus para ressaltar a origem divina de Jesus, em resposta ao arianismo. A palavra monogenes reflete o Heb. yahid, "único", "precioso" [Gn. 22:2, 12, 16, de Isaque], e se emprega em Hb 11:17 de Isaque, que era único no sentido de ser o único filho da promessa, mas que não era o filho único gerado por Abraão. Talvez a melhor tradução da palavra seja "único" no sentido de "sem igual". João claramente tem a intenção de distinguir o relacionamento exclusivo de Jesus com o Pai, daquele de outras pessoas que vêm a ser filhos de Deus através dEle [cf. Jo 1:14 com v. 13]. Para mais discussão, ver Arndt, 528; D. Moody, JBL 72, 1953, 213-19; R. E. Brown, The Gospel According to John, I, 1966, 13-14). Idem, p. 565

Filosofia grega:


Logos (Gr. logos, palavra, raciocínio). A noção do Logos figurou na filosofia gr. a partir de Heráclito (c. de 500 a.C.) que o entendeu como raciocínio universal que permeia e governa  o mundo. Foi adotada pelos filósofos estóicos neste sentido. Glossário, LXXI ...

Na filosofia grega o conceito de logos tem importância a partir de Heráclito (c. 500 a .C.) para o qual logos era o princípio unificador do mundo - que constantemente mudava. “Em Heráclito, as três concepções, Logos, fogo e Deus são fundamentalmente a mesma. Compreendido como Logos, Deus é a Sabedoria onipresente pela qual todas as coisas são governadas” (J. Adam, TheReligious Teachers of Greece, 1909, pág. 217)* p.1529

Após Heráclito, o conceito de logos foi utilizado, em grande escala, pelos estóicos, para os quais o fogo era a fonte primordial de toda a realdade. Esse fogo-críativo era conhecido como logos spermatikos, a Razão Seminal. Eles concebiam, entretanto, de vários logoi spermatikoi — as forças responsáveis pelos ciclos criativos da natureza. Em ambos os casos, Heráclito e os estóicos, o logos é impessoal, é uma força, um princípio unificador e, embora fizessem parte do mundo do pensamento na época de João, nâo tem relação direta com o conceito dele  p. 1530

João poderia laçar mão do conceito de Logos como princípio ordenador do Universo, mas apresentando-o como ser pessoal, o próprio Deus


Nos Targuns judaicos


Menra (Aram. mêmrã\ palavra) é empregado em lit. judaica para significar o logos divino  e criador, que manifesta o poder de Deus no mundo e na mente humana, ... Possivelmente subjaz Jo cap. 1. Às vezes era empregado nos Targum ao invés de Javé, para evitar antropomorfismo. Glossário, LXX

Nos Targuns aramaicos, a palavra (memra) é constantemente usada como uma designação de Deus. A memra não é um intermediário, como a Torah  mas um termo susbstituto para o próprio Deus. “E. M. Sidebottom dá a sua força nestes termos: "memra, portanto, não é um princípio mediador, e também não é a palavra criativa dos salmos. .. é o Nome do próprio Deus, talvez com a sugestão especial da autorevelação de Deus’ ” (L. Morris, The Gospel According to John, NICONT, pág. 120 n.).p. 1530
Essa interpretação é muito interessante já que o próprio João diz que Jesus é Deus e estava junto do Pai desde a eternidade

Por Fílon de Alexandria

 O logos era é cabeça do universo, intermediário, gerado por Deus Pai, impessoal

O pensador helenístico judeu, Filo  (c, de 20 a.C. — c. de 50 d.C.) considerava o Logos como sendo um agente intermediário  mais do que um poder imanente. Glossário, LXXI
 6. O emprego que Filo fazia de kephalè era original. O logos (-* palavra) é a “cabeça” do universo que Deus criou, sua fonte de vida, seu senhor supremo, seu soberano. “Carimba  o mundo como se faz com um selo, separa espécies e gêneros como aquele que corta . . . e, por meio do eikôn [-> Imagem] celestial, lhes dá uma participação em Deus” (C. Colpe, RGG3 V 343 Conhecimento* art ginóskõ). p. 255

4. No juduaísmo helenistico, Filo aplicava gennaõ a Deus na Sua obra de Criador (Leg. A li 3, 219). O logos (-* Palavra), animais e plantas são gerados por Deus (Conf, Ling. 63; Mut. Nom. 63; cf. Migr. Abr. 35). Filo, no entanto, não aplicava esta idéia ao relacionamento entre Deus e os piedosos. O emprego que Filo fazia da palavra se contrasta com o Credo de Nicéia no século IV, que empregou gennaõ quanto ao Pai gerar o Filho, e ktizõ (“criar”), porém, com respeito ao mundo, p. 1363

Filo, o expoente maior do pensamento judaico helenista, ‘‘usa o termo Logos para expressar o conceito de um mediador entre o Deus transcendente e o universo, um poder imanente, ativo na criação e na revelação; mas embora o Logos seja freqüentemente personificado, ele nunca é verdadeiramente personalizado, W. F. Howard, Christianity according to St. John, 1943, pág. 38.  p. 1530


Como visto acima, Fílon apresenta a Palavra como gerada, e de fato é, como também impessoal.


Conclusões:

Jesus é apresentado como Logos no sentido de Deus, como usado nos Targuns. João diz que ele estava com Deus era divino como Deus Pai.

Jesus nunca foi gerado como Deus.



 APÊNDICE
OS CREDOS ECUMÊNICOS

Os credos antigos sobre a Trindade infelizmente ensinam a eterna geração de Jesus Cristo exceto o apostólico:


1. O CREDO DOS APÓSTOLOS
Creio em Deus Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu Filho Unigênito, nosso Senhor; que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria; sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto, e sepultado, e desceu ao Hades; e ressuscitou da morte ao terceiro dia; que subiu ao Céu, e está sentado à mão direita de Deus, o Pai Todo-poderoso; de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo; na santa Igreja cristã, na comunhão dos santos; na remissão dos
pecados; na ressurreição da carne; e na vida eterna.

 2. O CREDO NICENO
Cremos em um só Deus, Pai Onipotente, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, o Unigênito do Pai, que é da substância do
Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância [homooúsios] com o Pai, por meio de quem todas as coisas vieram a existir, as coisas que estão no céu e as coisas que estão na terra, que por nós, homens, e por nossa salvação desceu e foi feito carne, e se fez homem, sofreu, e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, e virá para julgar os vivos e os mortos. E também no Espírito Santo.

Mas aqueles que dizem: “Houve um tempo quando ele não era”; e “Ele não era antes de ter
nascido”; e “Ele foi feito do que não existe”, ou “Ele é de outra substância” ou “essência”, ou “O Filho de Deus é criado”, ou “mutável”, ou “alternável” — eles são condenados pela Igreja cristã e apostólica.

3. O CREDO NICENO-CONSTANTINOPOLITANO
Cremos em um só DEUS, O PAI Todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas, visíveis e invisíveis.

E em um só Senhor JESUS CRISTO, o Filho Unigênito de Deus, o gerado do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz de Luz, Verdadeiro Deus de Verdadeiro Deus, gerado e não feito, da mesma substância do Pai, por meio do qual todas as coisas vieram a ser; o qual, por nós, os homens e pela nossa salvação desceu dos céus e encarnou-se do Espírito Santo e da Virgem Maria, e fez-se homem e foi por nós crucificado sob Pôncio Pilatos, e padeceu, e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus e está sentado à direita do Pai, e virá de novo, com glória a julgar vivos e mortos; e o seu Reino não terá fim.

E no ESPÍRITO SANTO, o Senhor e Vivificador, o que procede do Pai e do Filho, o que
juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o que falou por meio dos profetas;
E numa só Igreja santa, cristã e apostólica.
Confessamos um só batismo, para remissão dos pecados3 , esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém.

 4. O CREDO DE CALCEDÔNIA

Fiéis aos santos pais, todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar que nosso Senhor Jesus Cristo é o mesmo e único Filho, perfeito quanto à divindade e perfeito quanto à humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo consubstancial ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em todas as coisas semelhante a nós, exceto no pecado, gerado, segundo a divindade, antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem Maria, a portadora de Deus [Theotókos].

 Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis. A distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza
permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência; não dividido ou separado em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor, conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo ensinou-nos e o credo dos pais transmitiu-nos.

 5. O CREDO DE ATANÁSIO OU ATANASIANO
1 Todo aquele que quer ser salvo, antes de tudo, deve professar a fé universal.
 2 A qual é preciso que cada um guarde perfeita e inviolada ou terá com certeza de perecer para sempre. 
3 A fé universal é esta: que adoremos um Deus em trindade, e trindade em unidade; 
4 Não confundimos as Pessoas, nem separamos a substância. 
5 Pois existe uma única Pessoa do Pai, outra do Filho, e outra do
Espírito Santo.
 6 Mas a deidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é toda uma só: glória é igual e
a majestade é coeterna. 
7 Tal como é o Pai, tal é o Filho e tal é o Espírito Santo. 
8 O Pai é incriado, o Filho é incriado, e o Espírito Santo é incriado.

 9 O Pai é imensurável, o Filho é imensurável, e o Espírito Santo é imensurável.
 10 O Pai é eterno, o Filho é eterno, e o Espírito Santo é eterno. 
11 E, no entanto, não são três eternos, mas há apenas um eterno. 
12 Da mesma forma, não há três incriados, nem três imensuráveis, mas um só incriado e um imensurável. 
13 Assim também o Pai é onipotente, o Filho é onipotente e o Espírito Santo é onipotente. 
14 No entanto, não há três onipotentes, mas, sim, um onipotente.
 15 Assim, o Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus. 
16 No entanto, não há três Deuses, mas um Deus. 
17 Assim o Pai é Senhor, o Filho é Senhor, e o Espírito Santo é Senhor. 
18 Todavia, não há três Senhores, mas um Senhor. 
19 Assim como a veracidade cristã nos obriga a confessar cada Pessoa individualmente como sendo Deus e Senhor; 
20 Assim também ficamos privados de dizer que haja três Deuses ou Senhores. 
21 O Pai não foi feito de coisa alguma, nem criado, nem gerado; 
22 o Filho procede do Pai somente, não foi feito, nem criado, mas gerado.
23 O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, não foi feito, nem criado, nem gerado, mas procedente.
24 Há, portanto, um Pai, e não três Pais; um Filho, e não três Filhos; um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. 
25 E, nessa trindade, não existe primeiro nem último; maior nem menor. 26 Mas as três Pessoas são coeternas, são iguais entre si mesmas; 27 De sorte que, por meio de todas, como acima foi dito, tanto a unidade na trindade como a trindade na unidade deve ser adorada.
 28 Portanto, quem quiser ser salvo, deve pensar assim a respeito da Trindade. 29 Mas é necessário para a salvação eterna: que também se creia fielmente na encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo.
 30 É, portanto, verdadeira fé que creiamos e confessemos que nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e homem; 
31 Deus, da substância do Pai, gerado antes dos séculos, e homem, da substância de sua
mãe, nascido no mundo. 
32 Perfeito Deus e perfeito Homem, subsistindo em uma alma racional e carne humana. 
33 Igual ao pai segundo a sua Divindade, e menor do que o Pai segundo a sua humanidade. 
34 O qual, ainda que seja Deus e homem, não é dois, e sim um só Cristo. 35 Um só;
não por conversão da sua Divindade em carne; mas, sim, pela assunção em Deus da sua Humanidade.
36 Um só, não por confusão de substância, mas sim, pela unidade da Pessoa. 37 Porque assim como uma alma racional e carne são um só homem, assim também Deus e Homem são um só Cristo. 
38 O qual sofreu por nossa salvação: desceu ao inferno, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos. 39 Ascendeu aos céus: assentando-se à direita de Deus Pai Onipotente. 
40 De onde virá para julgar os vivos e os mortos. 
41 A cuja vinda todos os homens ressurgirão com seus corpos; 
42 E darão conta de suas próprias obras. 
43 E os que tiverem feito o bem entrarão na vida eterna; e os que tiverem feito o mal,
para ao fogo eterno. 
44 Esta é a fé universal: a menos que um homem creia fiel e firmemente, não poder ser salvo.
















quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O despertar de tudo, matriarcado e deusa mãe



O despertar de tudo-uma nova história da humanidade

O Despertar de Tudo: Uma Nova História da Humanidade" (título original: The Dawn of Everything) é uma obra monumental escrita pelo antropólogo David Graeber e pelo arqueólogo David Wengrow. Lançado em 2021 (no Brasil em 2022 pela Companhia das Letras), o livro é considerado um dos textos mais importantes da década por propor uma revisão radical de tudo o que pensamos saber sobre a história da humanidade 

Editora ‏ : ‎ Companhia das Letras
Data da publicação ‏ : ‎ 5 agosto 2022
Edição ‏ : ‎ 1ª
Idioma ‏ : ‎ Português
Número de páginas ‏ : ‎ 696 páginas
 

Mito do Matriarcado Original Primitivo e Culto universal da deusa mãe refutado por  "O Despertar de Tudo"


Resumo e conclusão:
Existiu matriarcado? Sim, mas raramente
Era a forma original? Não.
O culto universal da deusa mãe em diversas culturas existiu? Não, embora existisse em algumas culturas, foi exagerado no passado e estatuetas foram mal interpretadas








"Quase todas as evidências disponíveis na Creta minoica indicam um regime político feminino — algum tipo de teocracia, governada por um colegiado de sacerdotisas. Aqui seria o caso de indagar: por que os pesquisadores contemporâneos relutam tanto em aceitar
essa conclusão? Não podemos atribuir tudo ao fato de os proponentes de um “matriarcado primitivo” terem feito alegações exageradas em 1902. Sem dúvida, os estudiosos tendem a dizer que as cidades governadas por colegiados de sacerdotisas são algo inusitado no registro etnográfico ou histórico. Porém, pela mesma lógica, poderíamos afirmar que não há registro de outro reino governado por homens no qual, em todas as representações
visuais, as figuras de autoridade são mulheres. Algo diferente estava ocorrendo em Creta p. 466




Situada na planície de Konya, na Turquia central, Çatalhöyük foi colonizada por volta de 7400 a.C. e continuou a ser povoada por cerca de 1500 anos (só para dar alguns parâmetros, é mais ou menos o mesmo período que nos separa de Amalafrida, rainha dos vândalos, que alcançou o auge de sua influência por volta de 523 d.C.). p. 234


Escavações mais recentes, porém, sugerem que descartamos Adônis rápido demais.5 Desde os anos 1990, os novos métodos de trabalho de campo empregados em Çatalhöyük trouxeram uma série de surpresas que nos obrigam a rever a história da cidade mais
antiga do mundo e também nossa maneira de pensar sobre as origens da agricultura em geral. Constatou-se que o gado, no fim das contas, não era domesticado: aqueles crânios impressionantes eram de ferozes auroques selvagens. Os santuários não eram santuários, e sim casas onde as pessoas se dedicavam a atividades do cotidiano, como cozinhar, comer e trabalhar nos seus ofícios artesanais — eram como qualquer outro lugar, a não ser pelo fato
de conterem uma maior quantidade de objetos rituais. Mesmo Deusa Mãe foi relegada às sombras. Não tanto porque as corpulentas estatuetas femininas pararam de aparecer nas
escavações, mas porque os novos achados passaram a ser encontrados não em santuários ou em tronos, mas em montes de lixo e refugos no lado de fora das casas, com as cabeças quebradas e removidas, e não pareciam mesmo terem sido tratadas como objetos de veneração religiosa.6

Hoje, a maioria dos arqueólogos considera um grande equívoco interpretar as imagens pré-históricas de mulheres corpulentas como “deusas da fertilidade”, uma ideia que é fruto de fantasias vitorianas há muito ultrapassadas sobre o “matriarcado primitivo”. No século xix, de fato, o matriarcado era considerado o modo-padrão de organização política das sociedades neolíticas (em oposição ao patriarcado opressor da subsequente Idade do Bronze). Em decorrência disso, quase todas as imagens de mulheres de
aparência fértil eram interpretadas como representações de deusasAtualmente, os arqueólogos estão mais propensos a assinalar que muitas estatuetas poderiam muito bem ter sido os equivalentes locais de bonecas infantis, como Barbies (o tipo de Barbie que se
poderia ter numa sociedade com padrões de beleza feminina muito diferentes); ou que diferentes estatuetas poderiam ter servido a finalidades totalmente diversas (o que é correto, sem dúvida); ou a deixar toda a discussão de lado afirmando que simplesmente não
temos e nunca teremos a menor ideia dos motivos que levavam as pessoas a criarem tantas imagens femininas, de modo que o mais provável é que todas as interpretações oferecidas sejam projeções de nossos próprios pressupostos sobre as mulheres, o gênero ou a fertilidade, mais do que qualquer coisa que fizesse sentido para um habitante da Anatólia neolítica.p. 235-236




Não foi só a ideia de “matriarcado primitivo” que se tornou hoje um espantalho: a mera sugestão de que as mulheres tenham ocupado posições de maior destaque nas primeiras comunidades agrícolas é um convite à censura acadêmica. Talvez isso não seja tão surpreendente. Assim como os rebeldes sociais, desde os anos 1960, tendiam a idealizar os bandos de caçadores-coletores, as gerações anteriores de poetas, anarquistas e boêmios tinham sido propensas a idealizar o Neolítico como uma teocracia benevolente governada por sacerdotisas da Grande Deusa, a onipotente ancestral distante de Inanna, Ishtar, Astarté e da própria Deméter —até que essas sociedades foram esmagadas pela chegada de homens patriarcais violentos, falantes de uma língua indo-europeia, vindos das estepes a cavalo ou, no caso do Oriente Médio, de nômades falantes de uma língua semítica, oriundos dos desertos. A maneira de enxergar esse confronto imaginário acabou criando uma grande divisão política no final do século xix e começo do século xx.

Para dar uma ideia do que se trata, vejamos Matilda Joslyn Gage (1826-1898), considerada em vida como uma das mais importantes feministas norte-americanas. Gage era também anticristã, atraída pelo “matriarcado” haudenosaunee, que acreditava ser um dos poucos exemplos restantes da organização social neolítica, e vigorosa defensora dos direitos indígenas, a ponto de ser adotada como mãe do clã mohawk. (Ela passou os anos finais de vida na casa de seu devotado genro, L. Frank Baum, autor dos livros de Oz — uma série de catorze volumes que, como muitos já mencionaram, traz rainhas, fadas e princesas, mas nenhuma figura masculina de autoridade.) Em Woman, Church, and State [A mulher, a igreja e o Estado] (1893), Gage postulou a existência universal de uma forma inicial de sociedade “conhecida como Matriarcado ou governo da Mãe”, em que as instituições governamentais e religiosas seguiam os moldes da relação entre a mãe e sua prole no lar. p. 237


Com essa politização tão intensa de leituras obviamente fantasiosas da pré-história, não admira muito que o tema do “matriarcado primitivo” tenha se tornado uma fonte de vergonha — o equivalente intelectual a uma zona proibida — para as gerações seguintes. Mas é difícil evitar a impressão de que de fato existe algo aqui. O grau de apagamento foi extraordinário, muito maior do que a mera suspeita de se tratar de uma teoria muito forçada ou ultrapassada justificaria. Entre os acadêmicos atuais, a crença no matriarcado primitivo é tratada  como uma espécie de crime intelectual, quase equivalente ao “racismo científico”, e seus expoentes foram eliminados da história: Gage, da história do feminismo; Gross, da história da psicologia (apesar de ter criado conceitos como introversão e extroversão e ter trabalhado com muita gente de destaque, desde Franz Kafka e os dadaístas de
Berlim a Max Weber). p. 238


Isso causa estranhamento. Afinal, um século parece tempo mais do que suficiente para a poeira se assentar. Por que o assunto ainda continua tão cercado de tabus? Muito dessa suscetibilidade provém de uma reação contra o legado de uma arqueóloga lituano-americana chamada Marija Gimbutas. Nos anos 1960 e 1970, Gimbutas era uma grande autoridade no período final da pré-história da Europa Oriental. Hoje em dia, costumam representá-la como uma figura excêntrica, a exemplo de rebeldes da psiquiatria como Otto Gross, acusada de tentar reviver a mais ridícula das velhas fantasias vitorianas sob vestes modernas. Não só isso é falso (entre os que desqualificam o seu trabalho, são pouquíssimos os que parecem ter de fato lido alguma coisa de sua obra), como também criou uma situação que torna difícil para os estudiosos sequer espe ularem como a hierarquia e a exploração vieram a criar raízes na esfera doméstica — a menos que se queira voltar a Rousseau e à noção simplista de
que a agricultura sedentária, de alguma maneira, gerou automaticamente o poder dos maridos sobre as esposas e dos pais sobre os filhos.

Na verdade, se lermos os livros de Gimbutas — como The Goddesses and Gods of Old Europe [Os deuses e deusas da Velha Europa] (1982) —, rapidamente percebemos que a autora estava se dedicando a algo que, até então, só os homens tinham sido autorizados a tentar: elaborar uma narrativa grandiosa sobre as origens da civilização eurasiana. Para isso, tomou como base o mesmo conceito de “áreas de cultura” que abordamos no capítulo anterior,  usando-o para afirmar que, em alguns aspectos (mas certamente não em todos), a velha história vitoriana sobre os agricultores adoradores da deusa e os invasores arianos era mesmo verdadeira. p. 238

Gimbutas estava empenhada em entender os contornos gerais de uma tradição cultural a que chamava de “Velha Europa”, um mundo de aldeias neolíticas sedentárias concentradas nos Bálcãs e no Mediterrâneo Oriental (mas se estendendo também mais ao norte), onde, segundo ela, homens e mulheres eram igualmente valorizados e as diferenças de riqueza e status eram bastante circunscritas. Segundo suas estimativas, a Velha Europa se estendeu mais ou menos de 7000 a.C. a 3500 a.C. — o que, mais uma vez, é um período considerável. Ela acreditava que essas sociedades eram essencialmente pacíficas e que compartilhavam
de um panteão comum sob a tutela de uma deusa suprema, cujo culto é atestado em centenas e centenas de estatuetas femininas — algumas pintadas com máscaras — encontradas em assentamentos 
neolíticos, desde o Oriente Médio até os Bálcãs.7

Segundo Gimbutas, a “Velha Europa” teve um fim catastrófico no terceiro milênio a.C., quando os Bálcãs foram invadidos por uma migração de povos criadores de gado — o chamado povo “kurgan” — originários da Estepe Pôntica, ao norte do mar Negro. O termo
kurgan se refere à característica de mais fácil identificação arqueológica desses grupos: túmulos de terra amontoados sobre as sepulturas dos guerreiros (tipicamente masculinos), enterrados com armas e ornamentos de ouro, e com extravagantes sacrifícios de animais e, por vezes, também de “dependentes” humanos. Todas essas características atestavam valores opostos ao etos comunitário da Velha Europa. Os grupos recém-chegados eram aristocráticos, “androcráticos” (ou seja, patriarcais) e extremamente belicosos. Gimbutas os considerava responsáveis pela difusão ocidental das línguas indo-europeias, pela instauração de novas espécies de sociedades baseadas na subordinação radical das mulheres e pela
ascensão dos guerreiros como casta dominante.

Conforme citamos, tudo isso guardava uma certa semelhança com as velhas fantasias vitorianas — mas havia diferenças fundamentais. A versão anterior se baseava numa antropologia evolucionária que considerava o matriarcado como a condição original da espécie humana porque, de início, as pessoas supostamente não entendiam a paternidade fisiológica e julgavam que as mulheres eram as únicas responsáveis pela procriação. Isso
significava, claro, que as comunidades caçadoras-coletoras anteriores deviam ser tão matrilineares e matriarcais quanto os primeiros agricultores, se não mais — algo que muitos inclusive defendiam como pressupostos básicos, apesar da total ausência de qualquer tipo evidência. p. 239

Gimbutas, porém, não propunha nada desse tipo: seu argumento tratava da autonomia e da prioridade ritual das mulheres no Neolítico europeu e médio-oriental. Todavia, nos anos 1990, muitas ideias suas se tornaram uma bandeira para ecofeministas, religiões New Age e uma legião de outros movimentos sociais, inspirando uma enxurrada de livros populares que iam do filosófico ao ridículo — e, nesse processo, acabaram se entrelaçando com algumas das velhas ideias vitorianas mais extravagantes. Em vista de tudo isso, muitos arqueólogos e historiadores concluíram que Gimbutas estava turvando as águas que dividiam a pesquisa científica da literatura popular. Não demorou muito, e ela passou a ser acusada de praticamente tudo de que a academia conseguiu lançar mão: desde escolher a dedo as evidências de acordo com sua conveniência a deixar de acompanhar os avanços
metodológicos, de se entregar a um sexismo às avessas ou de se comprazer em “mitificar”. Chegou até a se tornar alvo do supremo insulto da psicanálise pública, quando importantes periódicos acadêmicos publicaram artigos sugerindo que suas teorias sobre o
deslocamento da Velha Europa eram basicamente projeções fantasmagóricas de sua tumultuada experiência de vida, quando Gimbutas fugiu de sua terra natal, a Lituânia, ao final da Segunda Guerra Mundial e na esteira das invasões estrangeiras.8 Felizmente, talvez, a própria Gimbutas, falecida em 1994, não estava presente para acompanhar grande parte desses acontecimentos. Mas isso também significou que ela nunca pôde dar uma resposta. Algumas, talvez a maioria, dessas críticas continham elementos de verdade — embora sem dúvida se possam fazer críticas similares a praticamente qualquer arqueólogo que desenvolva um tema abarcando um extenso período histórico. Os argumentos de Gimbutas incluíam uma certa mitificação, o que em parte explica a humilhação geral de seu trabalho por parte da comunidade acadêmica. Mas, quando são os homens da academia
que se entregam a tal mitificação — e, como vimos, isso é bem frequente —, eles não só passam ilesos, como muitas vezes ganham prestigiosos prêmios literários e séries de palestras são batizadas com seu nome. É provável que se tenha considerado que Gimbutas estava invadindo, e deliberadamente subvertendo, um gênero de narrativa grandiosa que era (e ainda é) dominado por autores homens, como nós mesmos. No entanto, o que ganhou em
troca não foi um prêmio literário ou um lugar entre os respeitados ancestrais da arqueologia — foi o aviltamento póstumo quase universal ou, ainda pior, a conversão em objeto de desprezo desdenhoso. Pelo menos até bem pouco tempo atrás. p. 240

Nos últimos anos, a análise de dnas antigos — que não existia na época de Gimbutas — tem levado uma série de arqueólogos importantes a admitirem que pelo menos uma parte significativa da reconstituição feita por ela provavelmente estava correta. Se esses novos argumentos, apresentados com base na genética populacional, estiverem corretos pelo menos em termos gerais, então de fato houve uma expansão de povos pastores das pradarias
ao norte do mar Negro por volta da época que Gimbutas supusera: o terceiro milênio a.C. Alguns estudiosos inclusive afirmam que houve migrações maciças partindo das estepes eurasianas naquela época, levando ao realocamento da população e talvez à difusão de
línguas indo-europeias em extensos trechos da Europa Central, tal como concebera Gimbutas. Outros são bem mais cautelosos; mas, seja como for, após décadas de silêncio quase completo, de repente as pessoas voltam a falar sobre essas questões e, portanto, sobre a obra de Gimbutas.9

E quanto à outra metade do argumento de Gimbutas, de que as sociedades do Neolítico Inicial eram relativamente isentas de níveis e hierarquias? Antes mesmo de começar a responder a essa pergunta, é preciso esclarecer alguns equívocos. Gimbutas, na verdade, nunca afirmou com todas as letras a existência de matriarcados neolíticos. Na verdade, o termo parece ter significados bem variados para diferentes autores. Considerando que com
“matriarcado” se descreve uma sociedade em que há a preponderância de mulheres nas posições políticas formais, pode-se de fato dizer que é extremamente raro na história humana. Existem inúmeros exemplos de mulheres com poder executivo efetivo, comandando exércitos ou criando leis, mas são pouquíssimas, se é que existem, as sociedades em que se espera normalmente que apenas mulheres detenham o poder executivo, comandem exércitos ou criem leis. Mesmo rainhas fortes, como Elizabeth i da Inglaterraa Imperatriz Mãe da China ou Ranavalona i de Madagascar não nomearam principalmente outras mulheres como conselheiras, comandantes, juízas e ocupantes de altos cargos públicos.

Em todo caso, há outro termo — “ginarquia” ou “ginecocracia” — para descrever o papel político das mulheres. A palavra “matriarcado” significa algo bem diferente. Há aqui uma certa lógica: “patriarcado”, afinal, se refere não ao fato de que são os homens que ocupam cargos públicos, mas acima de tudo à autoridade dos patriarcas, isto é, os homens chefes de família — uma autoridade que opera como modelo simbólico e base econômica do poder
masculino em outros campos da vida social. O matriarcado poderia se referir a uma situação equivalente, em que o papel da mãe na casa também se torna o modelo, e a base econômica, para a autoridade feminina em outros aspectos da vida (o que não significa necessariamente a dominação em sentido violento ou exclusionista), e em decorrência disso as mulheres ganham uma preponderância no exercício do poder no dia a dia. p´. 241

Vistos dessa maneira, os matriarcados são bem reais. O próprio Kondiaronk presumivelmente vivia em um. Em sua época, os grupos falantes de iroquês, como os wendats, viviam em cidades formadas por casas comunitárias com cinco ou seis famílias. Cada uma era dirigida por um conselho de mulheres — os homens que moravam ali não tinham um conselho paralelo próprio —, cujas integrantes controlavam todos os estoques essenciais de alimentos, roupas e instrumentos. A esfera política em que atuava o próprio Kondiaronk era talvez a única na sociedade wendat que não tinha predomínio feminino, e mesmo assim havia conselhos de mulheres com poder de veto sobre qualquer decisão dos conselhos masculinos. Com essa definição, as nações Pueblo, como os hopis e os zuñis,
também se qualificariam como matriarcados, e os minangkabaus, um povo muçulmano de Sumatra, se descrevem como matriarcais exatamente por essas mesmas razões.10
É verdade que tais ordenamentos matriarcais são um tanto raros — pelo menos nos registros etnográficos, que cobrem aproximadamente os últimos duzentos anos. Mas, depois que se evidencia que esses ordenamentos podem existir, não temos nenhuma razão especial para excluir a possibilidade de que fossem mais comuns nos tempos neolíticos ou para supor que Gimbutas — ao procurá-los nesse período — estivesse fazendo algo intrinsecamente fantasioso ou equivocado. Como qualquer hipótese, é uma questão de avaliar e contextualizar as evidências. 
Isso nos leva de volta a Çatalhöyük. p. 242

Como realmente pode ter sido a vida na cidade neolítica mais famosa do mundo: Recentemente, uma série de descobertas entre a arte de
miniaturas de Çatalhöyük aparenta mostrar que a forma feminina era um foco especial de atenção ritual, de esmerada artesania e de reflexão simbólica sobre a vida e a morte. Uma delas é uma figura de argila com a frente feminina tipicamente corpulenta, que nas
costas, passando por braços de aparência emaciada, forma um esqueleto modelado de forma meticulosa. A cabeça, agora perdida, era fixada numa cavidade no topo. Outra estatueta feminina tem uma pequena cavidade no centro das costas, onde fora posta uma
semente de uma planta silvestre. E os escavadores encontraram dentro de uma plataforma doméstica, como as usadas para sepultamentos, uma estatueta feminina de calcário, muito bem entalhada e especialmente reveladora. Sua detalhada representação esclarece um aspecto das figuras de argila mais comuns: os seios murchos, a barriga caída e os depósitos de gordura aparentam representar não a gravidez, como se acreditava antes, mas sim a velhice.11
Essas descobertas sugerem que as estatuetas femininas mais comuns, embora claramente não fossem objetos de culto, tampouco eram bonecas ou brinquedos. Deusas? É pouco provável. Mas é bem possível que fossem alguma espécie de matriarcas, cujas formas revelavam um interesse em torno de anciãs como figuras de autoridade. E não se encontrou nenhuma representação equivalente para os homens. Claro que isso não significa que devamos ignorar as inúmeras outras estatuetas neolíticas que apresentam possíveis
atributos fálicos ou atributos masculino-femininos mistos, ou são tão simplificadas que nem conseguimos identificá-las direito como masculinas ou femininas, ou sequer como visivelmente humanas. 

Da mesma forma, as ocasionais ligações entre estatuetas e máscaras no Neolítico — atestadas tanto no Oriente Médio como na Europa Oriental12 — podem estar relacionadas com ocasiões ou apresentações em que tais distinções categóricas eram apagadas ou mesmo invertidas de forma deliberada (algo não muito diferente, digamos, das mascaradas da Costa do Pacífico na América do Norte, em que as divindades e os que faziam sua personificação eram quase sempre homens).

Não existe nenhuma evidência de que a população feminina de Çatalhöyük tivesse um padrão de vida melhor que o da população masculina. Estudos detalhados de esqueletos e dentes humanos revelam uma paridade básica na alimentação e saúde, bem como no tratamento ritual dos cadáveres masculinos e femininos.13 Mesmo assim, permanece a questão de que não existe nenhuma representação tão esmerada ou elaborada de formas masculinas na arte transportável de Çatalhöyük. Já a decoração das paredes é outro assunto. Quando surgem cenas coerentes nos murais remanescentes, referem-se sobretudo à caça e ao acuamento de animais como javalis, cervos, ursos e touros bravos. Os participantes são homens e meninos, aparentemente representados em diversos estágios da vida ou talvez ingressando em determinadas etapas com as provas de iniciação na caça. Algumas dessas figuras cheias de energia usam pele de leopardo; numa cena que retrata o cerco a um gamo, todos têm barba.